26.2.04
INTERREGNO
Uma deslocação profissional impede-me de continuar o «bloganço». Conto estar de regresso em dois ou três dias para, entre outras coisas, continuar a conversa sobre liberalismo e Kant com o Causa Liberal e actualizar os Cadernos de Marcel Aymé.
0 Mimos & Coices
PORTUGAL, TANTOS DE TAL...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que a rocha do cais de Âlcantara-Mar
me acenou, e intimou os oceanos
a abrirem alas aos meus vinte-e-quatro anos,
a abrirem-lhe os portais, de par em par...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que troquei com Lisboa um longo olhar...
(... E, à medida
que a expressão, transida,
do semblante da cidade-mater benquerida
sancionava os paramentos
da partida,
vinham de lá os mais nevoentos
dos seus ventos,
em comitiva desabrida,
apresentar cumprimentos
de despedida.)
Foi a esta mesma hora, d´outros tempos,
que a Vida deu mais vida à minha vida.
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que a marítima gare de Âlcantara-Mar
agitou mãos, drapejou lenços, desfraldou panos,
aclamou, vitoriou milicianos
e, de mim, se foi sumindo, devagar...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que aprendi a bem-amar o alto-mar!...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que, nas asas do azul mais exaltante,
fui chamado a render os veteranos,
com a minha elevação a alferes-infante;
os que lá, nos quadrantes africanos,
finda a sua campanha extenuante,
concitavam o advento de esquadrões pretorianos
que levassem o combate por diante...!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
num fim-de-tarde tão distinto quão distante...,
que o sextante testou ombros e planos,
e eu me rendi, pelo espaço de um par de anos,
ao meridiano encantamento do Levante!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que a Pátria talhou proas no meu peito,
e que o mais ideal dos lusitanos,
indiferente quer a perdas quer a danos,
ou a penas e peninhas d´outro jeito,
passeou os seus vinte e quatro anos, soberanos,
p´lo mastro principal do «Príncipe Perfeito»!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que o Sonho se cumpriu! Sonho desfeito...
Foi por esta mesma hora, que recordo
e que nunca por nunca mais enterro,
que a minha ansiedade entrou a bordo,
que todo o meu ardor levantou ferro!
Foi por esta mesma hora, d´outra idade —
— quando o lance de partir era critério,
e a Vida era verdade, e a mocidade
rumava d´hemisfério a hemisfério... —,
foi por esta mesma hora, de ouro e jade,
que a saudade criou ferida
e a cidade diluída me fitou bastante a sério.
Fim-de-tarde...
Fim-de-Vida...
Fim-de-dia...
Fim-d´Império...!
Rodrigo Emílio
0 Mimos & Coices
que a rocha do cais de Âlcantara-Mar
me acenou, e intimou os oceanos
a abrirem alas aos meus vinte-e-quatro anos,
a abrirem-lhe os portais, de par em par...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que troquei com Lisboa um longo olhar...
(... E, à medida
que a expressão, transida,
do semblante da cidade-mater benquerida
sancionava os paramentos
da partida,
vinham de lá os mais nevoentos
dos seus ventos,
em comitiva desabrida,
apresentar cumprimentos
de despedida.)
Foi a esta mesma hora, d´outros tempos,
que a Vida deu mais vida à minha vida.
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que a marítima gare de Âlcantara-Mar
agitou mãos, drapejou lenços, desfraldou panos,
aclamou, vitoriou milicianos
e, de mim, se foi sumindo, devagar...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que aprendi a bem-amar o alto-mar!...
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que, nas asas do azul mais exaltante,
fui chamado a render os veteranos,
com a minha elevação a alferes-infante;
os que lá, nos quadrantes africanos,
finda a sua campanha extenuante,
concitavam o advento de esquadrões pretorianos
que levassem o combate por diante...!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
num fim-de-tarde tão distinto quão distante...,
que o sextante testou ombros e planos,
e eu me rendi, pelo espaço de um par de anos,
ao meridiano encantamento do Levante!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que a Pátria talhou proas no meu peito,
e que o mais ideal dos lusitanos,
indiferente quer a perdas quer a danos,
ou a penas e peninhas d´outro jeito,
passeou os seus vinte e quatro anos, soberanos,
p´lo mastro principal do «Príncipe Perfeito»!
Foi por esta mesma hora, há trinta anos,
que o Sonho se cumpriu! Sonho desfeito...
Foi por esta mesma hora, que recordo
e que nunca por nunca mais enterro,
que a minha ansiedade entrou a bordo,
que todo o meu ardor levantou ferro!
Foi por esta mesma hora, d´outra idade —
— quando o lance de partir era critério,
e a Vida era verdade, e a mocidade
rumava d´hemisfério a hemisfério... —,
foi por esta mesma hora, de ouro e jade,
que a saudade criou ferida
e a cidade diluída me fitou bastante a sério.
Fim-de-tarde...
Fim-de-Vida...
Fim-de-dia...
Fim-d´Império...!
Rodrigo Emílio
25.2.04
UM INÉDITO DE RODRIGO EMÍLIO
O Nova Frente publicará amanhã, com a devida autorização do autor, um poema inédito de Rodrigo Emílio. Datado da meia-tarde de 5 de Setembro de 1998, «Portugal, Tantos de Tal...» é uma belíssima composição em que Rodrigo Emílio recorda a sua partida para Moçambique, em missão de soberania, a bordo do «Príncipe Perfeito» — partida que ocorrera havia precisamente 30 anos, isto é, a 5 de Setembro de 1968.
Perfeito em ritmo e imagens, sem uma única imperfeição formal — este poema de tom lírico e pungente recorda a partida dos milicianos na marítima estação de Alcântara-Mar. (Ah, todo o cais é uma saudade de pedra...) «Portugal, Tantos de Tal...», pela harmonia das aliterações e pelo desenho elocutório admirável, é construção poética só ao alcance de predestinados. Não se esqueça, caro leitor. Amanhã. Pela tardinha.
0 Mimos & Coices
Perfeito em ritmo e imagens, sem uma única imperfeição formal — este poema de tom lírico e pungente recorda a partida dos milicianos na marítima estação de Alcântara-Mar. (Ah, todo o cais é uma saudade de pedra...) «Portugal, Tantos de Tal...», pela harmonia das aliterações e pelo desenho elocutório admirável, é construção poética só ao alcance de predestinados. Não se esqueça, caro leitor. Amanhã. Pela tardinha.
O DILEMA DE CREUTZFELD-JACOB OU AS VACAS LOUCAS DA POLÍTICA
A União Europeia está a analisar a possibilidade de levantar o embargo às exportações de carne bovina portuguesa. Na semana passada, esteve em Portugal uma equipa de veterinários europeus para "avaliar a evolução da incidência de encefalopatia espongiforme bovina". Agora pergunto: caso o embargo não seja levantado, valerá a pena realizar as eleições europeias de Junho ou a interdição não é extensiva a parlamentares?
24.2.04
UMA PETIÇÃO PELA VIDA
O movimento cívico «Mais Vida, Mais Família», de que já se falou várias vezes no Nova Frente, está a reunir assinaturas com vista a exigir que a Assembleia da República e o Governo aprovem legislação que proteja a vida intra-uterina. A comunicação social, muito democraticamente, não concede ao movimento o mesmo tempo de antena que esbanjou com os grupos pró-abortistas. Mas vai ainda o leitor a tempo de apor o seu nome à petição. Faça-o aqui. Não deixe que a esquerda festiva transforme o país num carnaval ininterrupto. O prazo de recolha de assinaturas termina na próxima sexta-feira. Apresse-se. Pela Vida.
0 Mimos & Coices
CARNAVAL
As televisões transmitem os corsos carnavalescos cá da parvónia. Faz-me impressão essas trupes de foliões que esperneiam à chuva e ao frio. Pasmo perante a decoração alarve dos carros. Não compreendo a alegria de espectadores e participantes. Como diz o João Pereira Coutinho: «Uma felicidade artificial e pelintra, montada em carros de lavoura e devidamente enfeitada com plumas e cartolinas». Ignoro por que razão um povo que é boçal e madraço o ano inteiro precisa de folgar três dias para ser ainda mais madraço e boçal. Inquieta-me o desdém a que são votados os lusos costumes, como as touradas, e a adopção mimética de quanta usança imunda nos chega da estranja. Vão por mim: mais ano menos ano, estamos a festejar o «Halloween Day». Comes e bebes por conta da casa. Tudo com o patrocínio da Coca-Cola.23.2.04
AINDA O LIBERALISMO DE KANT
Enquanto meia blogosfera aproveita a ponte carnavalesca para abandonar impunemente os teclados — eu e o AAA, do Causa Liberal — mascarados de aprendizes de filósofos — andamos para aqui a partir pedra desde a semana passada sobre o pretenso liberalismo de Kant.
Tem razão o AAA quando diz que a obra do filósofo alemão é demasiado vasta e complexa para ser tratada em meia dúzia de linhas. O Alexandre Franco de Sá, se tiver tempo, há-de dirimir a contenda... Mas não posso — nem devo — deixar passar em claro o recorrente paradoxo do AAA no seu postal de contra-resposta. Diz ele, na esteira dos liberais clássicos, que a liberdade é «o mais importante objectivo político, precisamente para que os "cidadãos" possam, dentro dos limites impostos pelos iguais direitos de terceiros, seguir a sua vontade». Ora, como posso eu exercer a minha liberdade dentro dos limites impostos pelos iguais direitos de terceiros?! (Isto parece, sem ofensa, o argumento liberal usado por adolescentes: — a minha liberdade acaba onde começa a dos outros...) Então, e se eu — no uso pleno e legítimo da minha liberdade — quiser acabar com a liberdade dos outros? Dirá o AAA — agitando a mãos ambas as sebentas dos clássicos — que não posso fazer tal sacanice, pois "não há liberdade contra a liberdade". Eis o paradoxo: ou a liberdade impõe limites à própria liberdade, negando assim o seu valor absoluto; ou não os impõe, aceitando neste caso o combate e eventual destruição da própria liberdade. Em qualquer das duas hipóteses (e não há outras), a liberdade auto-aniquila-se. Encarada como valor, é um erro filosófico. Todo o sistema liberal participa do erro. Kant sabia-o.
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Tem razão o AAA quando diz que a obra do filósofo alemão é demasiado vasta e complexa para ser tratada em meia dúzia de linhas. O Alexandre Franco de Sá, se tiver tempo, há-de dirimir a contenda... Mas não posso — nem devo — deixar passar em claro o recorrente paradoxo do AAA no seu postal de contra-resposta. Diz ele, na esteira dos liberais clássicos, que a liberdade é «o mais importante objectivo político, precisamente para que os "cidadãos" possam, dentro dos limites impostos pelos iguais direitos de terceiros, seguir a sua vontade». Ora, como posso eu exercer a minha liberdade dentro dos limites impostos pelos iguais direitos de terceiros?! (Isto parece, sem ofensa, o argumento liberal usado por adolescentes: — a minha liberdade acaba onde começa a dos outros...) Então, e se eu — no uso pleno e legítimo da minha liberdade — quiser acabar com a liberdade dos outros? Dirá o AAA — agitando a mãos ambas as sebentas dos clássicos — que não posso fazer tal sacanice, pois "não há liberdade contra a liberdade". Eis o paradoxo: ou a liberdade impõe limites à própria liberdade, negando assim o seu valor absoluto; ou não os impõe, aceitando neste caso o combate e eventual destruição da própria liberdade. Em qualquer das duas hipóteses (e não há outras), a liberdade auto-aniquila-se. Encarada como valor, é um erro filosófico. Todo o sistema liberal participa do erro. Kant sabia-o.
21.2.04
SONHO DE UM CARNAVAL
Fim-de-semana prolongado. A blogosfera despovoada à míngua de bloguistas e leitores. O «Site Meter» a marcar passo. O João Pereira Coutinho a afiar a navalha em Bragança, terra de samba e mulatas. Até o fidelíssimo Pedro Guedes parece ter abandonado o teclado. Os foliões de Ovar e Loulé, enregelados, ensaiam os desfiles de guarda-chuva e gabardina. E eu, pobre de mim, sem vontade de escrever, publico um poema do primeiro disco de Chico Buarque:
Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
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Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano
Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano
Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança
20.2.04
A CASA DE SARTO
"Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam. Oremus. Aufer a nobis, quaesumus, Domine, initquitatibus nostras: ut ad Sancta sanctorum puris mereamur mentibus introire. Per Christum Dominum nostrum, Amen".
Seja bem vindo à blogosfera, ó bem aventurado criador de A Casa de Sarto!
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Seja bem vindo à blogosfera, ó bem aventurado criador de A Casa de Sarto!
O RATO
Quando menos se espera abre a gente o jornal e topa com um rato como aconteceu ao Cláudio do conto da Agustina que deu com um rato na cozinha e não esperou para ver se ele estava de passagem ou se era emigrante ou simples figura de lenda e chamou o desratizador que espalhou farinha no chão da cozinha e dois dias depois sabia o peso e a idade e o tamanho do rato porque a farinha deixou escritas as impressões das quatro patas e o comprimento da cauda e por isso o desratizador soube a idade do rato pelo comprimento da cauda e assim por diante sem se deixar impressionar com o aspecto do animal embora haja pessoas que se impressionam com a cauda dos ratos por ser pelada e parecer um verme e outras que não gostam das orelhas decerto pelo tom róseo e sem penugem e havia até um domador de leões que tinha medo dos ratos que mesmo enjaulados faziam-no estremecer e no entanto os seus quatro leões pachorrentos obedeciam às suas ordens e temiam-no mas a verdade é que um rato no fundo é um animal como os outros que não pensa porque não precisa de pensar e faz melhor que isso como todo o predador que usa sinais que a natureza manda de todos os lados e um rato da cidade além da natureza tem uma rede de informações prodigiosa e como tal é difícil apanhá-lo pois tudo vibra e range e brilha e escorre e tanto as pessoas como os objectos fazem variadíssimos ruídos e cheiram de toda a maneira e sobretudo avisam da sua presença e o rato que pode ser de laboratório ou de cozinha ou de esgoto ou de biblioteca ou de semanário sabe logo se a pessoa é aleijada ou se usa bengala ou se sofre da bexiga ou se usa sapatos ou chinelos e ainda por cima estão cada vez mais evoluídos os estupores dos ratos porque já se pronunciam sobre as questões chamadas fracturantes que são justamente assuntos próprios de rato e até sabem ler e contar e embora nenhum escreva peva de jeito não caem na armadilha das ratoeiras posto que sejam ratoneiros ou até parecidos com o Kirkegaard como o rato do conto da Agustina que morreu velho sem ser apanhado porque hoje em dia não se consegue apanhar o raio de um rato nem eliminar o raio de um rato e por isso só se pode mandá-lo para o rato que o parta.
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LIBERALIDADES
O AAA do Causa Liberal diz que o meu postal sobre Kant e os Liberais «peca por alguma falta de rigor». Creio que tal entendimento se deve ao facto, aliás confessado, de o AAA não ter percebido o texto.
Vamos por partes. Sei muito bem que «há vários liberalismos». Não sei eu outra coisa, caro AAA. Há dezenas deles. Centenas. Porventura, milhares. Há-os para todos os gostos e feitios. A mercearia liberal está generosamente abastecida de produtos e modelos. Mas sendo liberalismos, têm forçosamente de defender todos eles a liberdade como um valor absoluto. Podem até, na peugada de Croce, aludir à religião da liberdade. Ora, se a liberdade é um valor absoluto, que a ninguém é lícito negar, então a liberdade surge como um imperativo que não suporta contestações. Isto é, a liberdade impõe-se à própria vontade dos cidadãos! Repare, caro AAA, no paradoxo: tomada como norma obrigatória, nega afinal o que é a sua essência.
E se me redarguir que a liberdade não é obrigatória, nem pretende que todos a respeitem, então é lícito destruir a liberdade. Outro paradoxo! E não argumente com a estafada tese de que "não há liberdade contra a liberdade", pois é flagrante contradição nos próprios termos.
O AAA confessa que tudo isto é novidade para ele. É precisamente por isso que vale a pena frequentar o Nova Frente. Há por cá novidades em barda, tantas ou mais que os liberalismos.
Quanto às interpretações de Kant por liberais, de Mises e Hayek a Ayn Rand, é matéria em que não me imiscuo. Deixá-los interpretar... Se eles consideram Kant um «simpatizante da Revolução Francesa» é porque não leram com olhos de ver a obra do filósofo alemão. Digo-lhe apenas a título de mero exemplo, caro AAA, que o ideário de 1789 proclama o direito natural e imprescritível de «resistência à opressão», ao passo que Kant alude expressamente nos Fundamentos de Metafísica (Fundamentación de la metafísica de las costumbres, Madrid, Espasa Calpe, 1980) ao «dever que tem o povo de submeter-se até aos abusos de um poder soberano declarado insuportável». Um liberal dos quatro costados, como vê.
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Vamos por partes. Sei muito bem que «há vários liberalismos». Não sei eu outra coisa, caro AAA. Há dezenas deles. Centenas. Porventura, milhares. Há-os para todos os gostos e feitios. A mercearia liberal está generosamente abastecida de produtos e modelos. Mas sendo liberalismos, têm forçosamente de defender todos eles a liberdade como um valor absoluto. Podem até, na peugada de Croce, aludir à religião da liberdade. Ora, se a liberdade é um valor absoluto, que a ninguém é lícito negar, então a liberdade surge como um imperativo que não suporta contestações. Isto é, a liberdade impõe-se à própria vontade dos cidadãos! Repare, caro AAA, no paradoxo: tomada como norma obrigatória, nega afinal o que é a sua essência.
E se me redarguir que a liberdade não é obrigatória, nem pretende que todos a respeitem, então é lícito destruir a liberdade. Outro paradoxo! E não argumente com a estafada tese de que "não há liberdade contra a liberdade", pois é flagrante contradição nos próprios termos.
O AAA confessa que tudo isto é novidade para ele. É precisamente por isso que vale a pena frequentar o Nova Frente. Há por cá novidades em barda, tantas ou mais que os liberalismos.
Quanto às interpretações de Kant por liberais, de Mises e Hayek a Ayn Rand, é matéria em que não me imiscuo. Deixá-los interpretar... Se eles consideram Kant um «simpatizante da Revolução Francesa» é porque não leram com olhos de ver a obra do filósofo alemão. Digo-lhe apenas a título de mero exemplo, caro AAA, que o ideário de 1789 proclama o direito natural e imprescritível de «resistência à opressão», ao passo que Kant alude expressamente nos Fundamentos de Metafísica (Fundamentación de la metafísica de las costumbres, Madrid, Espasa Calpe, 1980) ao «dever que tem o povo de submeter-se até aos abusos de um poder soberano declarado insuportável». Um liberal dos quatro costados, como vê.
19.2.04
O NOVA FRENTE OU A NOVA FRENTE?
Um leitor amigo, cliente fiel cá da casa, pergunta se este blogue deve ser grafado no masculino ou no feminino. Respondo-lhe que pode ser das duas formas. É à vontade do freguês. Pode este entender, e bem, que por a expressão "Nova Frente" ser feminina se deve antepor o artigo definido "a"; assim como pode arguir, igualmente bem, que este blogue deve ser designado como masculino singular por, na expressão "Nova Frente", estar subentendido ou elidido o vocábulo "blogue".
Este problema de linguagem foi colocado, creio eu, pela imprensa desportiva que desatou a escrever «a União de Leiria» (tendo como referente a "União"), posto que nunca redijam «a Vitória de Setúbal» ou «a Vitória de Guimarães».
0 Mimos & Coices
Este problema de linguagem foi colocado, creio eu, pela imprensa desportiva que desatou a escrever «a União de Leiria» (tendo como referente a "União"), posto que nunca redijam «a Vitória de Setúbal» ou «a Vitória de Guimarães».
CADERNOS DE MARCEL AYMÉ
Actualizei os Cadernos de Marcel Aymé com mais dados sobre a vida e obra do grande escritor.
*
Não pretendo redigir mais apontamentos biográficos sobre Aymé. Nele, como nos demais autores, é imperioso distinguir entre o homem e a obra. O homem não é a obra; a obra não é o homem — como muitos julgam. A obra vale sempre por si. Biografismos em excesso deturpam o produto do espírito. Os Cadernos de Marcel Aymé nasceram de uma ideia quase extemporânea do autor deste blogue. Se o tempo não fosse um bem escasso, gostaria de colocar on line páginas semelhantes sobre Brasillach. Céline, Lucien Rebatet, Henry de Montherlant e Roger Nimier; ou sobre Edgar Allan Poe, Scott Fitzgerald, Faulkner, Hemingway e Ezra Pound; ou Knut Hamsun, Kipling, Chesterton, Joyce, James Hilton, E. M. Forster, Hermann Hesse, Rainer Maria Rilke; e também Dostoiewsky, Tolstoi, Ionesco, Cioran, Pol Vandromme, Robert Poulet, Curzio Malaparte, Yukio Mishima; assim como Ramón Gómez de la Serna, Eugénio Montes e Jorge Luis Borges. E tantos outros... Não esquecendo os portugueses: Camilo, Eça, Fialho, Pessoa, Almada Negreiros e Tomás de Figueiredo — todos eles serviriam também para construir belas páginas blogosféricas. Mas o tempo não o permite. Que outros bloguistas o façam — eis o meu desejo.
0 Mimos & Coices
*
Não pretendo redigir mais apontamentos biográficos sobre Aymé. Nele, como nos demais autores, é imperioso distinguir entre o homem e a obra. O homem não é a obra; a obra não é o homem — como muitos julgam. A obra vale sempre por si. Biografismos em excesso deturpam o produto do espírito. Os Cadernos de Marcel Aymé nasceram de uma ideia quase extemporânea do autor deste blogue. Se o tempo não fosse um bem escasso, gostaria de colocar on line páginas semelhantes sobre Brasillach. Céline, Lucien Rebatet, Henry de Montherlant e Roger Nimier; ou sobre Edgar Allan Poe, Scott Fitzgerald, Faulkner, Hemingway e Ezra Pound; ou Knut Hamsun, Kipling, Chesterton, Joyce, James Hilton, E. M. Forster, Hermann Hesse, Rainer Maria Rilke; e também Dostoiewsky, Tolstoi, Ionesco, Cioran, Pol Vandromme, Robert Poulet, Curzio Malaparte, Yukio Mishima; assim como Ramón Gómez de la Serna, Eugénio Montes e Jorge Luis Borges. E tantos outros... Não esquecendo os portugueses: Camilo, Eça, Fialho, Pessoa, Almada Negreiros e Tomás de Figueiredo — todos eles serviriam também para construir belas páginas blogosféricas. Mas o tempo não o permite. Que outros bloguistas o façam — eis o meu desejo.
COUTO VIANA E TOMÁS DE FIGUEIREDO
A Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) acaba de editar, na sua "Biblioteca de Autores Portugueses", a obra poética completa de António Manuel Couto Viana. Trata-se de «60 Anos de Poesia», em dois tomos — que vivamente recomendamos. Na mesma colecção, foram também publicados os inéditos de poesia e teatro de Tomás de Figueiredo, com os títulos «Poesia I», «Poesia II» e «Teatro» (este último com prefácio notabilíssimo de Couto Viana). Para além de extraordinário prosador — os seus contos, novelas e romances são de riqueza vocabular inigualável na literatura pátria —, Tomás de Figueiredo é um poeta e dramaturgo de mão cheia. Andou bem a INCM, sob a sábia direcção de Braz Teixeira, na edição destes dois nomes essenciais das letras portuguesas.
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AS ORIENTAÇÕES DO BARÃO EVOLA OU PEDRO GUEDES EM REVOLTA CONTRA O MUNDO MODERNO
Frequento desde menino e moço a vasta obra de Julius Evola, extraordinário pensador italiano nascido em 1898; e, através dela, acheguei-me à escola tradicionalista, podendo assim conviver com Joseph de Maistre e J. J. Bachofen e, para citar autores mais recentes, René Guénon e Frithjof Schuon, Savitri Devi e Miguel Serrano, entre outros.
Regozijo-me por isso com a louvável iniciativa do Pedro Guedes, que decidiu colocar on line os Cadernos Evolianos. Neste ano de 2004, cumprem-se trinta anos sobre a morte de Evola e setenta sobre a publicação de «Revolta contra o mundo moderno», porventura a sua obra mais conhecida. O Mestre bem merece o esforço. «Um erudito de génio» — assim lhe chamou Marguerite Yourcenar. Cabe agora aos leitores do notável pensador italiano, na linha do que recomendava Vintila Horia, «procurar entre estas ruínas o rosto de um amanhã que já está entre nós, talvez irreconhecível, mas presente e distinto».
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Regozijo-me por isso com a louvável iniciativa do Pedro Guedes, que decidiu colocar on line os Cadernos Evolianos. Neste ano de 2004, cumprem-se trinta anos sobre a morte de Evola e setenta sobre a publicação de «Revolta contra o mundo moderno», porventura a sua obra mais conhecida. O Mestre bem merece o esforço. «Um erudito de génio» — assim lhe chamou Marguerite Yourcenar. Cabe agora aos leitores do notável pensador italiano, na linha do que recomendava Vintila Horia, «procurar entre estas ruínas o rosto de um amanhã que já está entre nós, talvez irreconhecível, mas presente e distinto».
18.2.04
DESABAFO
RODRIGO EMÍLIO
O Rodrigo Emílio é um poeta (e prosador, já agora) de grande talento, afastado do público por força da ditadura cultural de esquerda em vigor. Cumpre hoje o seu 60.º aniversário. Tenho a subida honra de ser seu amigo. O pacientíssimo poeta, aturando o meu mau génio desde há largos anos, ainda não denunciou essa amizade. Retribuo-lhe aqui — também aqui — essa perseverança. O Nova Frente, ao longo destes meses, tem referido o nome de Rodrigo Emílio em vários postais (Viva a Poesia!, Voluta, São Bastonário da Carta Aberta), que convido agora o leitor a reler.
(na imagem: o poeta na sua Casa de S. José, em Parada de Gonta)
18 DE FEVEREIRO
Sessenta anos! — Magia
De vida sã e de exílio.
Seu métier: a poesia,
Seu nome: Rodrigo Emílio.
0 Mimos & Coices
De vida sã e de exílio.
Seu métier: a poesia,
Seu nome: Rodrigo Emílio.
16.2.04
KANT E OS LIBERAIS
Alguns dos blogues mais liberais da blogosfera lusa lavraram o panegírico de Kant no bicentenário da morte do filósofo alemão. Tais textos surpreenderam-me. É certo que, à primeira vista, Kant parece ser o pensador que faz da liberdade o próprio substractum da moralidade e que proclama o homem como fim em si mesmo. Não nos deixemos iludir pelas aparências. A inspiração central da sua ética está no culto da Razão enquanto forma universal e objectiva; e é precisamente da lei universal da razão que Kant deduz a liberdade — é aquela que fundamenta esta e não o contrário. Como ensina o Prof. Cabral de Moncada na sua «Filosofia do Direito e do Estado», o filósofo distingue entre a liberdade, alicerçada na razão, e o arbítrio, que é exactamente a liberdade sem limites (porque valor por si e em si) necessariamente perfilhada pelo liberalismo. E quando Kant proclama o homem como fim em si mesmo está a referir-se ao homo noumenon, que para ele é sinónimo de universalidade da razão — e não ao homem tout court.
É assim bem evidente que o ethos kantiano opõe-se ao liberalismo (e ao individualismo ou personalismo), achando-se por isso na linha dos grandes filósofos alemães do século XIX que fizeram a crítica dos dogmas da Revolução Francesa. Com efeito — de Kant a Nietzsche, de Fichte a Schelling, de Hegel a Schopenhauer — o pensamento germânico revoltou-se perenemente contra o absurdo ideário de 1789.
0 Mimos & Coices
É assim bem evidente que o ethos kantiano opõe-se ao liberalismo (e ao individualismo ou personalismo), achando-se por isso na linha dos grandes filósofos alemães do século XIX que fizeram a crítica dos dogmas da Revolução Francesa. Com efeito — de Kant a Nietzsche, de Fichte a Schelling, de Hegel a Schopenhauer — o pensamento germânico revoltou-se perenemente contra o absurdo ideário de 1789.
14.2.04
UM BISPO SEXUALMENTE CORRECTO
O ilustre antístite Januário Torgal Ferreira, sempre à la page, defende o uso do preservativo e da pílula. Assume-se assim como um clérigo «sexualmente correcto», digno representante de uma Igreja aggiornata que repudia a encíclica «Humanae Vitae» e outras reaccionarices. Nestas matérias, sou o mais liberal possível. Acho muito bem que o bispo Januário use preservativo e aconselhe eventuais parceiras a tomarem a pílula. Mas no meu quarto tais ditames não penetram. O Estado e a Igreja, voyeurs indesejáveis, ficam à porta.
0 Mimos & Coices
13.2.04
CADERNOS DE M. AYMÉ
DIGA SIM À VIDA!
É função da prata comunista e para-comunista cá da casa encontrar motivos, sempre os mesmos e sempre renovados, para repor todas as coisas em litígio — e, de preferência, coisas vitais — com a finalidade de atiçar movimentos irresponsáveis e desfazer as estruturas comunitárias. A luta pela liberalização das drogas ditas leves e do aborto enxerta-se nesta estratégia de dissolução. No que respeita a este último, vai ainda o leitor a tempo de assinar a petição «Mais Vida, Mais Família», cujo download pode fazer aqui. Diga sim à Vida e mande a esquerda bugiar!
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VERMEER
Johannes Vermeer é um extraordinário pintor holandês do século XVII. O óleo em cima é o famoso "Lição de Música" que, seguindo um percurso raro, acabou emoldurado numa parede do Palácio de Buckingham, em Londres. À primeira vista, parece mesmo uma lição de música: a jovem aluna, o professor, o cravo e outros instrumentos... Mas um exame cuidado revela outra realidade: a carpete oriental esconde uma parte significativa dos aposentos, emprestando ao espaço um clima de intimidade. O jarro sobre a mesa bem pode ser de vinho, o que denota cumplicidade entre os presentes. E a jovem, estando embora virada de frente para o espelho, tem o seu rosto reflectido a olhar o professor! O espelho diz-nos o que lhe vai na alma... Parecia música à primeira vista – mas era amor.
12.2.04
AYMÉ
Os Cadernos de Marcel Aymé foram actualizados com uma carta do escritor sobre a "arte de julgar".
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A AMÉRICA VISTA POR EÇA
Em todo o vasto continente americano, não há uma cidade, um centro activo, onde exista, se possa descobrir, um único americano. Em Nova Iorque, onde se agitam dois milhões de homens que são irlandeses, ou ingleses, ou escoceses, ou alemães, ou suecos, ou franceses, ou italianos, ou russos, ou espanhóis, ou portugueses, é fácil ainda encontrar chineses, japoneses, hindus, tártaros, persas, marroquinos, árabes do deserto, negros dos mais negros fundos de África: mas é impossível descortinar um homem que, no puro sentido etnológico, seja uma americano.
Para se ver esse espécimen venerável dos velhos senhores do solo, é necessário empreender uma viagem, passar para além de Omaha, para além do território do Nebrasca, para além do país dos búfalos; e aí será possível, em torno a alguma estação de caminho de ferro do Pacífico, avistar um americano, cor de cobre, de longas guedelhas corredias, mirrado e embrutecido, que pede esmola e se coça por entre os farrapos da camisa e das pantalonas, recebidas, pelo Natal, na grande distribuição, como esmola do alto pai, do grande chefe branco que está em Washington (...)
E fomos nós, aqui nesta esfalfada Europa, que, suando e gemendo, continuámos a espantosa tarefa da civilização, descobrindo as leis universais, criando as ciências naturais, construindo os sistemas de filosofia, apurando a beleza das artes, fundando indústrias, dando ao mundo a imprensa, a electricidade, o gás, o vapor, os teares, os telégrafos, milhões de livros, toda a sorte de ideias!... E destes benefícios inumeráveis recebidos pelas naus da carreira, logo a boa América se utilizava e gozava, conspirando já, surdamente, contra a nossa supremacia (...) Em mais de um século de independência, esses próprios Estados Unidos, que se proclamam o povo iniciador da América, não têm concorrido para a obra da civilização do mundo com uma ideia nova, nem com uma forma nova (...) A sua única invenção é talvez o telefone — que, se não fosse emendado e refundido pelos mecânicos ingleses, ainda hoje permaneceria um aparelho grotesco e radicalmente inútil.
(...) se Europeus e Americanos definitivamente se desquitassem e cada um recolhesse aquilo que é obra lenta do seu génio, os Americanos ficariam subitamente sem religião, sem leis, sem moral, sem ciência, sem artes, sem indústrias, sem costumes, sem tudo o que constitui a vida superior de um povo, e seriam apenas uns selvagens louros, uns Peles-Brancas, absolutamente iguais aos Peles-Vermelhas que eles consideram uma mancha na civilização do continente e que, por isso, perseguem a tiro, como os ursos e como os búfalos.
Eça de Queirós, in Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, Lello & Irmão, Porto, s/d, pp. 126-134.
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Para se ver esse espécimen venerável dos velhos senhores do solo, é necessário empreender uma viagem, passar para além de Omaha, para além do território do Nebrasca, para além do país dos búfalos; e aí será possível, em torno a alguma estação de caminho de ferro do Pacífico, avistar um americano, cor de cobre, de longas guedelhas corredias, mirrado e embrutecido, que pede esmola e se coça por entre os farrapos da camisa e das pantalonas, recebidas, pelo Natal, na grande distribuição, como esmola do alto pai, do grande chefe branco que está em Washington (...)
E fomos nós, aqui nesta esfalfada Europa, que, suando e gemendo, continuámos a espantosa tarefa da civilização, descobrindo as leis universais, criando as ciências naturais, construindo os sistemas de filosofia, apurando a beleza das artes, fundando indústrias, dando ao mundo a imprensa, a electricidade, o gás, o vapor, os teares, os telégrafos, milhões de livros, toda a sorte de ideias!... E destes benefícios inumeráveis recebidos pelas naus da carreira, logo a boa América se utilizava e gozava, conspirando já, surdamente, contra a nossa supremacia (...) Em mais de um século de independência, esses próprios Estados Unidos, que se proclamam o povo iniciador da América, não têm concorrido para a obra da civilização do mundo com uma ideia nova, nem com uma forma nova (...) A sua única invenção é talvez o telefone — que, se não fosse emendado e refundido pelos mecânicos ingleses, ainda hoje permaneceria um aparelho grotesco e radicalmente inútil.
(...) se Europeus e Americanos definitivamente se desquitassem e cada um recolhesse aquilo que é obra lenta do seu génio, os Americanos ficariam subitamente sem religião, sem leis, sem moral, sem ciência, sem artes, sem indústrias, sem costumes, sem tudo o que constitui a vida superior de um povo, e seriam apenas uns selvagens louros, uns Peles-Brancas, absolutamente iguais aos Peles-Vermelhas que eles consideram uma mancha na civilização do continente e que, por isso, perseguem a tiro, como os ursos e como os búfalos.
Eça de Queirós, in Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, Lello & Irmão, Porto, s/d, pp. 126-134.
11.2.04
A FILARMÓNICA DO ESTORIL
A banda filarmónica do Estoril actuou esta noite no belíssimo palco do Restelo, em Lisboa. Ulisses Morais, o maestro dos «canarinhos» (assim chamados pelo som sumamente melodioso das suas interpretações), dirigiu o colectivo com inegável virtuosismo e pundonor. Para assegurar a defesa da banda e a sua reputação, fez alinhar na fila de trás um trombone e quatro trompetistas, que se revelaram seguros; logo a seguir, estavam três clarinetistas, com vista a pautar o jogo, isto é, jogar a pauta; na linha da frente, três percussionistas encorpados, que — com batidas estrídulas — provocaram vários rombos no edifício, que esteve em risco de ruir. O público, em júbilo, exigiu prolongamento. E vários encores finais. Mas, muito a custo, o edifício lá conseguiu manter-se em pé. Questionado pelo Nova Frente sobre as fissuras do nobre palco, o responsável pelas instalações desvalorizou o sucedido: «Este palco é o mais bonito do país, por muitos milhões que se enterrem noutras construções. Vamos fazer um rigoroso exame à obra e estou certo de que a olissipógrafa Marina Tavares Dias nos dará uma explicação para tamanhas brechas...» A banda do Estoril, essa, não prosseguirá a sua tournée: foi injustamente eliminada por ter desafinado na última música. Os rapazes de amarelo estavam inconsoláveis: « — A gente merecia ir tocar ao Jamor» — era o que mais diziam.
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CADERNOS DE MARCEL AYMÉ
A partir de hoje, estão on line em blogue próprio os Cadernos de Marcel Aymé, acabadinhos de criar. Se há autor que vale a pena revisitar, é sem dúvida este francês amigo de Céline, de quem falámos ontem.
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SAINT-LOUP
Dediquei o passado fim-de-semana à leitura. Depois do livro de contos de Couto Viana, citado no postal anterior, li finalmente Novos Cátaros para Montségur (ed. Hugin), de Saint-Loup, com tradução do meu amigo António Carlos Rangel (um abraço, António Carlos!)
Saint-Loup é o pseudónimo de Marc Augier, jornalista francês que fundou o movimento Jeunes de l´Europe Nouvelle e integrou a comissão política do PPF de Doriot. Em 1945, teve de seguir o caminho do exílio (isto ultimamente parece sina...) com o avisado propósito de se libertar dos seus libertadores. O Rangel, esse, por não se ter exilado a tempo, sofreu a bom sofrer. Revela-se hoje um tradutor seguro, principalmente de obras com forte simbolismo esotérico. O Pedro Guedes é que ia gostar de fazer uma tertúlia evoliana com ele!
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Saint-Loup é o pseudónimo de Marc Augier, jornalista francês que fundou o movimento Jeunes de l´Europe Nouvelle e integrou a comissão política do PPF de Doriot. Em 1945, teve de seguir o caminho do exílio (isto ultimamente parece sina...) com o avisado propósito de se libertar dos seus libertadores. O Rangel, esse, por não se ter exilado a tempo, sofreu a bom sofrer. Revela-se hoje um tradutor seguro, principalmente de obras com forte simbolismo esotérico. O Pedro Guedes é que ia gostar de fazer uma tertúlia evoliana com ele!
10.2.04
MEIAS DE SEDA VERMELHA
Li de um fôlego o mais recente livro de António Manuel Couto Viana: Meias de seda vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata. Editado com a chancela da Prefácio, trata-se de oito contos escritos pelo autor entre Novembro de 2002 e Fevereiro de 2003.
Poeta, dramaturgo, ensaísta e tradutor — figura singular da cultura portuguesa das últimas décadas —, faltava à bibliografia de Couto Viana um livro de contos que o consagrasse também neste domínio. Pois ele aí está à disposição do leitor! Oito histórias deliciosas, passadas todas entre os anos do fim da monarquia e os primeiros tempos republicanos, misturando realidade e ficção — nas personagens, nos locais e até em certos factos históricos. Admirável como poeta, Couto Viana não o é menos como contista. O seu estilo é despojado, quase em linha recta, sem circunlóquios nem divagações inúteis. São quase cem páginas de puro deleite. É comprar antes que esgote.
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Poeta, dramaturgo, ensaísta e tradutor — figura singular da cultura portuguesa das últimas décadas —, faltava à bibliografia de Couto Viana um livro de contos que o consagrasse também neste domínio. Pois ele aí está à disposição do leitor! Oito histórias deliciosas, passadas todas entre os anos do fim da monarquia e os primeiros tempos republicanos, misturando realidade e ficção — nas personagens, nos locais e até em certos factos históricos. Admirável como poeta, Couto Viana não o é menos como contista. O seu estilo é despojado, quase em linha recta, sem circunlóquios nem divagações inúteis. São quase cem páginas de puro deleite. É comprar antes que esgote.
DUAS NOTAS SOBRE CÉLINE
1. Há quatro dias, o Último Reduto perguntava por que estão proscritos tantos escritores colaboracionistas, ao passo que Céline, igualmente rotulado de colaboracionista tem toda a obra publicada em Portugal.
Discutiu-se a questão na caixa de comentários, mas eu quero aqui deixar mais algumas achegas para o debate.
Não é verdade que Céline tenha toda a obra publicada. Os textos políticos — como «Bagatelles pour un massacre», «Les Beaux Draps» e «L´École des cadavres» — nunca foram ao prelo. O resto da obra, sim. Profundamente ancorado nas raízes literárias do seu país, numa linha que remonta a Balzac, ao espírito de Rabelais e Mathurin Régnier, ao próprio Vítor Hugo — Louis-Ferdinand Destouches, que para as coisas literárias tomou de empréstimo o nome da mãe, revolteou a ficção e deu à França um émulo a opor, no seu género, aos Thomas Hardy, aos Bjørnstjerne Bjørnson, aos Léon Tolstoi. O seu primeiro livro, Viagem ao Fim da Noite (1932), recebeu o aplauso unânime da crítica, de León Daudet a Leon Trotsky — cuja faceta de crítico literário é quase desconhecida. No seu exílio mexicano, o velho comunista ficou encantado com as aventuras de Bardamu. Considerou Céline a «expressão máxima do génio francês». Para ele, a Viagem era uma extraordinária novela que retrata o «absurdo da vida» e as suas «crueldades e mentiras». Enfim, Céline era um «moralista» — com um «sentido excepcional da vida e da linguagem».
Assim idolatrado de uma ponta a outra do espectro político, o dr. Destouches estava condenado ao escaparate. Condenação justíssima. O irascível Céline influenciou a prosa de inúmeros escritores do mundo inteiro: André Gide e Henry Miller, George Orwell e Roger Nimier, William Burroughs e o português Lobo Antunes — todos eles foram tocados, de uma forma ou de outra, pelo estilo inovador e desregrado do médico francês.
2. Depois da guerra, Céline e a mulher, Lucette Almanzor, só regressariam a França em 1951, beneficiando de uma lei de amnistia. O escritor exerceu medicina em casa. Lucette, antiga bailarina, abriu uma escola de dança. O pobre Albert Camus, as mãos nos bolsos, o cigarro na boca, costumava vaguear em frente à escola, filado que andava numa das alunas. Um dia Lucette quis apresentá-lo a Céline. Camus recusou: « — Não vale a pena, eu sei o que ele pensa de mim» — e estugou o passo pela rua abaixo.
Uma das alunas de Lucette era a filha de Marcel Aymé, amigo de Céline e um dos mais extraordinários prosadores do século passado. Mas fiquemos por aqui. A Aymé voltaremos um dia, que bem merece.
9.2.04
EM BUSCA DAS ARMAS PERDIDAS
Os aliados não conseguem divisar as anunciadas armas de destruição maciça. Eles, coitados, que todos os dias morrem nas cálidas areias d´entre Tigre e Eufrates para resgatar a Humanidade — começam a ficar desesperados. Em vários meses de investigação aturada, descobriram somente um dos tais bunkers com quilómetros de comprimento e tecnologia sofisticada — de onde retiraram ainda com vida o corpo mal lavado de Saddam Hussein. Mas quanto a armas de destruição maciça, nicles...
Chega de mistérios. Eu digo-vos onde estão as armas. Partindo de Bagdad, sigam em direcção a Ar Rutbah, a poente. São 400 quilómetros, a maior parte dos quais por auto-estrada. Podem ir a toda a brida, que a GNR está mais para sul. Chegados a Ar Rutbah, encaminhem-se para Amã e, antes de alcançar a cidade, cortem à esquerda para Al Karak. São mais 600 quilómetros. Não tenham medo. Está tudo devidamente sinalizado. É um bonito passeio, de resto, num percurso paralelo ao Mar Morto — os promontórios rochosos, os beduínos de camelo, os nómadas acampados. Tomem a seguir a estrada de Be´er Sheva. Meio caminho andado, parem em Dimona. Procurem o complexo nuclear, a 15 quilómetros da cidade. As armas estão aí! Advirto-vos que já estamos em território de Israel, mas essa é — estou certo — uma questão de somenos importância para investigadores tão conscienciosos e isentos. Divirtam-se.
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Chega de mistérios. Eu digo-vos onde estão as armas. Partindo de Bagdad, sigam em direcção a Ar Rutbah, a poente. São 400 quilómetros, a maior parte dos quais por auto-estrada. Podem ir a toda a brida, que a GNR está mais para sul. Chegados a Ar Rutbah, encaminhem-se para Amã e, antes de alcançar a cidade, cortem à esquerda para Al Karak. São mais 600 quilómetros. Não tenham medo. Está tudo devidamente sinalizado. É um bonito passeio, de resto, num percurso paralelo ao Mar Morto — os promontórios rochosos, os beduínos de camelo, os nómadas acampados. Tomem a seguir a estrada de Be´er Sheva. Meio caminho andado, parem em Dimona. Procurem o complexo nuclear, a 15 quilómetros da cidade. As armas estão aí! Advirto-vos que já estamos em território de Israel, mas essa é — estou certo — uma questão de somenos importância para investigadores tão conscienciosos e isentos. Divirtam-se.
8.2.04
A FESTA DO FUTEBOL
A Torre de Belém. O Padrão dos Descobrimentos. Os Jerónimos. O Estádio do Restelo. As bancadas. O panorama soberbo. O relvado. As equipas. O jogo sem casos nem «toladas». O golo de Sokota. Os aplausos do público. O golo de João Pereira. Os aplausos do público. O futebol é uma festa.
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7.2.04
VLAMINCK
Apresento-lhe, caro leitor, um dos meus pintores favoritos: o francês Maurice de Vlaminck (1876-1958). Nasceu em Paris, no seio de uma família de músicos flamengos. Antes de se dedicar por inteiro à pintura, foi ciclista de competição e violinista. Autodidacta, contestou os princípios da arte académica. Dizia-se orgulhoso por nunca ter posto os pés no Louvre. O seu traço revela, porém, a influência de Vincent van Gogh. Possuindo ainda talento de prosador, escreveu novelas. O que muitos ignoram. E são ainda mais os que ignoram que em 1945, logo após a guerra, Vlaminck também malhou com os ossos na choça. Os seus crimes? Tanto quanto se conhece, respondeu por um único: ter passado as vacances de 1944 em território alemão, delito gravíssimo que — como os meus leitores sabem — não é diligência própria de um bom chefe de família.
(Paysage de Valmondois, 1912, óleo)
NOJO LITERÁRIO
Desde há duas ou três semanas, sempre que visito o Abrupto levo nas ventas com espessas baforadas de Albert Camus. São os caderninhos de Camus, ou lá o que é aquilo... É francamente abominável, a autor de O Estrangeiro. Ainda para mais misturado com um poeta da estatura de Cummings! Por questões de higiene, deixei de frequentar o blogue do conhecido deputado. Nojo literário — acho que é isso. Peço aos leitores menos sensíveis a aberrações literárias que me avisem quando a saga camusina chegar ao fim. Ao fim que merece.
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6.2.04
ROBERT BRASILLACH, PRESENTE!
A ordem (a desordem?) em que vivemos tem dois séculos e pico. Que se pode esperar de um sistema estabelecido pelo terror? Foi em França que tudo começou. Pregou-se a Liberdade e impôs-se a tirania. Anunciou-se a Igualdade com a guilhotina, decapitando indistintamente girondinos e jacobinos, revolucionários e contra-revolucionários. Exaltou-se a Fraternidade e instituiu-se a morte ("La Fraternité où la Mort", lê-se ainda agora na fachada da mairie de Troyes): os fuzilamentos sumários, as aldeias incendiadas, os afogamentos no Loire — a cabeça da princesa de Lamballe nas lanças da populaça. Que se pode esperar de um sistema assim parido? Diz o rifão popular que «o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita». A França, a doce França, interrompe de vez em quando os seus líricos cânticos à Fraternidade e reincide na prática guilhotinesca.
Há 59 anos, certinhos e aparados, caía em Montrouge o escritor Robert Brasillach, crivado de balas democráticas. Tinha 36 anos. Autor virtuoso, com centelha de génio, revelou o seu talento em domínios tão diversos como a crítica, a história literária, o jornalismo, o memorialismo, a poesia e o romance. Foi chefe de redacção do «Je Suis Partout», jornal politicamente incorrecto em que escreviam Lucien Rebatet, Pierre Antoine Costeau, Henri Lèbre e André Nicolas, entre outros. Neste hebdomadário, denunciou Brasillach em 1943 o massacre de Katyn, perpetrado pelos soviéticos, mas durante longos anos atribuído aos alemães. De colaboração com Maurice Bardèche, seu cunhado, publicou ainda uma importante «Histoire du Cinéma». As suas obras de ficção — Le voleur d´étincelles (1932), Comme le temps passe (1937) e Les sept couleurs (1939) — constituem excelente testemunho do período de entre-guerras. Se tivesse de eleger o meu romance de juventude, o nomeado seria sem dúvida o prodigioso Comme le temps passe (edição portuguesa: Como o Tempo Passa, ed. Ulisseia), admirável narrativa poética das vidas de René e Florence, história de juventude e aventura, desejo e tentação; como dizia Brasillach, o romance da juventude que foge e simultaneamente renasce, e também o de dois seres que podem procurar-se, perder-se, encontrar-se, sem nunca deixarem de ser feitos um para o outro.
De facto, foi ele o escritor que melhor soube compreender a beleza e a alegria da juventude e a melancolia dos que a vêem afastar-se irremediavelmente. Nessas páginas, o fabuloso polígrafo — não o sabendo — futura o seu próprio destino. Aludo ao episódio em que o jovem casal protagonista conhece em Toledo o pequeno Pablo, de 10 anos, que vendia barquillos num carrinho maior que ele — mas já fazia profissão de fé carlista. Certo dia, numa rixa de bairro, gritam-lhe: «Pelo socialismo ou pelo Rei?» — E Pablo responde: «Por Dom Carlos!». É imediatamente apedrejado. Morre. Como Brasillach morreria depois, preso à própria trama que criara, por não abjurar ideais nem amigos — le drapeau noir et les copains.
Em Janeiro de 1945, foi julgado por um tribunal revolucionário que, à boa maneira dos libertadores, concebeu notável farsa judiciária. Quando se divulgou, na sala, o veredicto que o condenava à morte, alguém exclamou: — c’est une honte!, mas o réu, o poeta da prisão de Fresnes, o homem que se recusara a fugir para a Suíça, corrigiu: — c’est un honneur! Iniciou-se, então, uma larga campanha a favor do indulto, em que participaram alguns dos maiores escritores franceses, de tendências políticas várias. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir recusaram-se a assinar a súplica. O general de Gaulle recusou o perdão. Alguns democratas mais empedernidos bateram as palmas estrepitosamente. Por amor ao condenado, decerto. Como o soubessem poeta e romancista da juventude, não lhe permitiram atingir aquela idade em que os homens se costumam tornar velhos.
Foi numa gélida manhã de Inverno que Brasillach teve encontro marcado com o pelotão de fuzilamento. Nesse dia, já depois de saber que o indulto fora recusado, terminou o seu ensaio sobre Chénier e escreveu alguns poemas. Releu a narrativa da Paixão em cada um dos quatro Evangelhos. Trouxe à memória, num relance, todas as pessoas que amava. Pensou, com desgosto, no desgosto delas. Aceitou o destino cruel sem um queixume ou fraqueza. Se calhar, lembrou-se do pequeno Pablo, que já não vendia barquillos nas ruas de Toledo. Os amigos, prisioneiros como ele, olhavam o céu pardo pelas grades das celas sombrias, as mãos postas, os olhos marejados de lágrimas. Ao troar das rajadas, contraíram os corpos num adeus angustiante. Abrira a época dos torneios de tiro ao homem. Eram a Liberdade e a Democracia que chegavam, ao som triunfal das metralhadoras.
5.2.04
PETIÇÃO PELA VIDA
O movimento cívico «Mais Vida, Mais Família» colocou on line o seu site oficial. Dê uma espreitadela e assine a petição. Pela Vida.
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SEM TÍTULO
Problema sem solução:
— Se ao menino e ao borracho
lá põe Deus a mão por baixo,
onde porá Ele a mão
em se tratando dum facho?
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— Se ao menino e ao borracho
lá põe Deus a mão por baixo,
onde porá Ele a mão
em se tratando dum facho?
4.2.04
PARA O ANO SOBEM...
O Pedro Guedes já dorme sossegado. O Alfredo F. já não tem crises de ansiedade. O Belenenses, último reduto do futebol total, reforçou a sua equipa. Agora sob o comando do muito augusto Inácio, contratou oito craques de uma assentada. Acabaram-se as diatribes contra Martins dos Santos, Carlos Mozer e demais gatunos. Para o ano, com tamanha profusão de craques, o campeonato da Divisão de Honra está no papo.
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LES VOILES
Ao meu leitor Mendo Ramires, com amizade.
Quand j'étais jeune et fier et que j'ouvrais mes ailes,
Les ailes de mon âme à tous les vents des mers,
Les voiles emportaient ma pensée avec elles,
Et mes rêves flottaient sur tous les flots amers.
Je voyais dans ce vague où l'horizon se noie
Surgir tout verdoyants de pampre et de jasmin
Des continents de vie et des îles de joie
Où la gloire et l'amour m'appelaient de la main.
J'enviais chaque nef qui blanchissait l'écume,
Heureuse d'aspirer au rivage inconnu,
Et maintenant, assis au bord du cap qui fume,
J'ai traversé ces flots et j'en suis revenu.
Et j'aime encor ces mers autrefois tant aimées,
Non plus comme le champ de mes rêves chéris,
Mais comme un champ de mort où mes ailes semées
De moi-même partout me montrent les débris.
Cet écueil me brisa, ce bord surgit funeste,
Ma fortune sombra dans ce calme trompeur ;
La foudre ici sur moi tomba de l'arc céleste
Et chacun de ces flots roule un peu de mon coeur.
Alphonse de Lamartine (1790-1869)
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Quand j'étais jeune et fier et que j'ouvrais mes ailes,
Les ailes de mon âme à tous les vents des mers,
Les voiles emportaient ma pensée avec elles,
Et mes rêves flottaient sur tous les flots amers.
Je voyais dans ce vague où l'horizon se noie
Surgir tout verdoyants de pampre et de jasmin
Des continents de vie et des îles de joie
Où la gloire et l'amour m'appelaient de la main.
J'enviais chaque nef qui blanchissait l'écume,
Heureuse d'aspirer au rivage inconnu,
Et maintenant, assis au bord du cap qui fume,
J'ai traversé ces flots et j'en suis revenu.
Et j'aime encor ces mers autrefois tant aimées,
Non plus comme le champ de mes rêves chéris,
Mais comme un champ de mort où mes ailes semées
De moi-même partout me montrent les débris.
Cet écueil me brisa, ce bord surgit funeste,
Ma fortune sombra dans ce calme trompeur ;
La foudre ici sur moi tomba de l'arc céleste
Et chacun de ces flots roule un peu de mon coeur.
Alphonse de Lamartine (1790-1869)
O BUIÇINHA
Recebi há pouco, há poucochinho, um e-mail assinado por Nelson Buiça, que diz ser neto do regicida. Verbera os «blogs da direita pura e dura» que, segundo ele, não «largam o osso» dos Buiças de Vinhais. Pergunta se lhe vamos bater! Apoda-me de idiota, pacóvio, reaccionário e fascistóide.
A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o desconceito de quem injustamente difamam. Eu não quero agredir ninguém. Nem a murro, nem a tiro. E numa honrosa demonstração de fair-play, dedico ao Buiçinha duas quadras que o seu e-mail me inspirou:
Esta minha arremetida
incomodou e pôs mal
o neto do regicida,
que não gostou do postal.
Todo o clã Buiça é giro
e o Nelson é um artista:
— eles liquidam a tiro
e eu é que sou extremista!
0 Mimos & Coices
A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o desconceito de quem injustamente difamam. Eu não quero agredir ninguém. Nem a murro, nem a tiro. E numa honrosa demonstração de fair-play, dedico ao Buiçinha duas quadras que o seu e-mail me inspirou:
Esta minha arremetida
incomodou e pôs mal
o neto do regicida,
que não gostou do postal.
Todo o clã Buiça é giro
e o Nelson é um artista:
— eles liquidam a tiro
e eu é que sou extremista!
3.2.04
UMA CAMPANHA PELA VIDA
O que é demais é moléstia, mas neste caso a insistência justifica-se por inteiro: não se esqueça, caro leitor, de assinar a petição «Mais Vida, Mais Família». Aqui.
O aborto é um crime hediondo cometido sobre um ser inocente e indefeso. A esquerda abortista, com o aplauso hipócrita da meia-direita, pretende liberalizar tal prática, equiparando-a à extracção de um dente. São os mesmos tartufos que patrocinam os direitos dos animais, do rato chino à pulga do mar, e ao depois querem condenar seres humanos formados ao caixote do lixo.
KAÚLZA DE ARRIAGA (1915-2004)
O general Kaúlza de Arriaga faleceu ontem ao princípio da noite, em Lisboa. Contava 89 anos de idade. A imprensa de referência deve entreter-se, hoje e amanhã, a destilar o ódio costumeiro nos textos de necrológio: as mesmas atoardas sobre a «Operação Nó Górdio», que Kaúlza dirigiu em Moçambique; as mesmas mentiras sobre o carácter do falecido; as mesmas injúrias ao regime que serviu. Umas e outras muito da lavra de Chico Costa Gomes, o rolha por antonomásia, que nunca perdoou a Kaúlza a desmontagem da golpada de Botelho Moniz, em 1961, tentativa de sedição em que o génio dos óculos fumados estava envolvido.
O velho guerreiro faleceu no Hospital Militar da Estrela, onde se achava internado. O mesmo hospital onde, há 30 anos, Costa Gomes marcou estrategicamente para a manhã de 25 de Abril uma consulta rotineira — para ver em que paravam as modas, e para que lado pendia a balança — sendo certo que de lá sairia como sempre, de óculos fumados e radiografia na mão, ao encontro dos vencedores do dia. Fossem eles quais fossem.
Kaúlza pertencia ao número (cada vez mais dígito) de militares que escolheram a carreira das armas por vocação e amor à Pátria, desprezando as jogatanas de bridge a as rodadas de whisky, passatempo favorito de quantos se enfiavam debaixo das Berliet a tiritar de coragem.
Que Deus Pai o conserve, agora e sempre, accanto a Se e em Sua Santa Guarda.
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O velho guerreiro faleceu no Hospital Militar da Estrela, onde se achava internado. O mesmo hospital onde, há 30 anos, Costa Gomes marcou estrategicamente para a manhã de 25 de Abril uma consulta rotineira — para ver em que paravam as modas, e para que lado pendia a balança — sendo certo que de lá sairia como sempre, de óculos fumados e radiografia na mão, ao encontro dos vencedores do dia. Fossem eles quais fossem.
Kaúlza pertencia ao número (cada vez mais dígito) de militares que escolheram a carreira das armas por vocação e amor à Pátria, desprezando as jogatanas de bridge a as rodadas de whisky, passatempo favorito de quantos se enfiavam debaixo das Berliet a tiritar de coragem.
Que Deus Pai o conserve, agora e sempre, accanto a Se e em Sua Santa Guarda.
2.2.04
AS ÚLTIMAS DAMAS
Nem do Minho a Timor, sequer: exangue,
Este país que mata a tiro — e cava.
A novata república do sangue
Vai do Campo Grande à Ribeira Brava.
Primeiras damas? Quem diria!
C´roa a exaurir, tropa em tropel...
Toldadas pelo contraste da genealogia,
São justas, boazinhas, sãs, só no papel.
( — Por que mataste,
Maria?
— Por que casaste,
Isabel?)
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Este país que mata a tiro — e cava.
A novata república do sangue
Vai do Campo Grande à Ribeira Brava.
Primeiras damas? Quem diria!
C´roa a exaurir, tropa em tropel...
Toldadas pelo contraste da genealogia,
São justas, boazinhas, sãs, só no papel.
( — Por que mataste,
Maria?
— Por que casaste,
Isabel?)
1.2.04
A NETA DO REGICIDA
Como já lembrou o Pedro Guedes, faz hoje 96 anos que assassinaram o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe. Isto é do conhecimento geral. Mas na douta e cultivada blogosfera saberá alguém porque razão nunca se fala na descendência de um dos regicidas?
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