11.4.08

IMORAL E IMPOLÍTICO 

Já ando para escrever sobre o Acordo Ortográfico há algum tempo. Os leitores perdoam-me a falta de oportunidade. Parece-me uma das batalhas que importa travar e vencer na blogosfera. Antes de mais, esclareço a minha posição: sou contra.
A questão das consoantes mudas, só por si, dá vários tratados. A eliminação do hífen, outros tantos. O acordo estabelece que não se usará hífen em palavras com prefixo terminado em vogal e o segundo elemento começado por 'r' ou 's'. Acaba assim com os anti-semitas. De ora em diante, só antissemitas. Nelson Rodrigues, o extraordinário dramaturgo e polemista brasileiro, recorria amiúde nas suas crónicas à expressão "um sol de rachar catedrais". Pois aquele «SS» central em antissemitas é de rachar sinagogas.
O assunto merece mais do que um postal, mas para já deixo aqui as duas principais razões do meu protesto:

1. O Estado não tem nada que se meter onde não é chamado. Que vá peneirar os tiques totalitários para outros domínios. Um idioma não se impõe por decreto. Fernando Pessoa, por exemplo, marimbou-se de alto para a Reforma Ortográfica de 1911 e continuou a grafar como havia aprendido. Sobre a reforma republicana, escreveu: «Além do impatriotismo, foi o acto imoral e impolítico».
O Inglês é a língua franca do mundo inteiro, mas nenhum Parlamento pretendeu até hoje "unir" e "harmonizar" as ortografias do Reino Unido e dos Estados Unidos, que são diferentes.

2. A diferença entre o Português de Portugal e o do Brasil é menos ortográfica do que lexical. Para além das naturais variações de pronúncia, prosódia e morfossintaxe. Há autocarro, em Portugal, e ônibus, no Brasil; comboio e trem; eléctrico e bonde; boleia e carona; talho e açougue; pequeno-almoço e café da manhã; casa de banho e banheiro; relvado e gramado; guarda-redes e goleiro; matraquilhos e pimbolim; telemóvel e celular; e um larguíssimo etc.

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  • Comentários:
    Se o SS de "antissemitas" é de rachar sinagogas o que não racha o SS dos "fodasse"? Este acordo ortográfico é mas é um abortográfico...
     
    Defesa-Central e Zagueiro
     
    Já agora, Banco é Caixa... :)
     
    Buceta e xoxota.
     
    Gosto, do fato do pato ter sido assinado...

    Desde já,declaro aqui em primeira mão, que não vou escrever segundo o acordo. E já estou a ver um futuro problema, a minha filha, muito provávelmente não irá gostar das correcções feitas por mim aos seus ditados ou composições.
     
    Caro Nordman

    Mesmo se esta coisa for avante, continuar-se-ão a assinar pactos.
     
    Ainda bem que fala nisto. Com o devido respeito, permito-me fazer uma modestíssima incursão neste tema. A construção linguística - sintaxe, fonética, acentuação, pontuação - que se vê e lê nos jornais, revistas e subtítulos dos programas televisivos (já para não falar dos erros ortográficos, agora em menor número) incluíndo o linguajar de certos políticos e de personalidades da vida pública, mete dó e causa calafrios. Muito embora em todas estas áreas haja honrosíssimas excepções. Estas entidades são reincidentes há anos, sem que nada nem ninguém lhes consiga travar os ímpetos, mas a ideia é mesmo essa, como se sabe. E na verdade este tem sido um trabalho de sapa. Quanto mais depressa se abastardar uma língua mais depressa se destruirá a identidade de um Povo.

    Por exemplo, o substantivo abstracto "treta" anda, desde há 15 anos ou mais, a ser maltratado e isto desde o dia em que o jornal 24 Horas, do alto da sua sapiência, se lembrou de o escarrapachar na capa, (mal) antecedido da preposição+artigo definido "da", o que jamais tinha acontecido desde que existe o vocábulo, trata-se pois de um erro crasso de composição. A partir desse dia toda a santa gente que escreve pùblicamente começou a repetir religiosa e sistemàticamente o mesmo erro, nunca mais retrocedendo. Sendo aquele um substantivo abstracto, deve ser antecedido ùnicamente da preposição "de" sem o artigo "a". E isto sucede simplesmente porque não estamos a falar de substantivos concretos como, por exemplo, a maçaneta 'da porta', a luz 'do sol', ou a altura 'da varanda', todos estes substantivos significam objectos concretos e definidos, pelo que não se diz, a maçaneta "de" porta, a luz "de" sol ou a altura "de" varanda. Os subs. abstractos são antecedidos da preposição simples 'de', porque se referem justamente a coisas indefinidas ou abstractas, como, ainda, uma dor "de" cabeça, uma falta "de" ar, etc. Não se diz: tenho uma dor DA cabeça ou tenho falta DO ar.
    Outro erro clássico, de acentuação, nos jornais e televisões e que infelizmente cada vez mais pessoas cometem, mesmo fora da comunicação escrita, é o facto incontornável de que em português TODAS as palavras graves acentuadas tònicamente, quando passam a esdrúxulas levam OBRIGATÒRIAMENTE acento. Passa de agudo a grave. Isto encontra-se explicado, preto no branco, numa boa gramática e num bom dicionário da língua portuguesa. Dos antigos, não dos paridos depois d'Abril, está bom de ver.
    Outro erro inexplicável é a fonética descabelada que, todos aqueles que a pronunciam, dão desde há anos à palavra IMPRESA, abrindo a vogal "E" e pronunciando-a como se levasse acento tónico agudo, sem justificação alguma. É o nome da Empresa de Balsemão e ele próprio, estranhìssimamente incorre no mesmo erro fonético... Este substantivo NÃO É ACENTUADO TÒNICAMENTE, por conseguinte não se pronuncia como se o fosse, nem o "E" antecede uma dupla consoante ou sequer um "X", o que lhe abriria a vogal. Soa mal aos ouvidos, é inestético e indesculpável. O que se pronuncia, sim, é o "I" inicial em I e não em E, como no substantivo quase homónimo, "EMPRESA".
    Na escrita, a conjunção copulativa "e" não deve ter a anteceder-lhe qualquer vírgula, ela própria marca a pontuação e divide a oração, salvo raras excepções, que as há como em todas as línguas. Porém, em qualquer dos casos não precisa da vírgula antecedente porque esse elemnto de pontuação torna a oração deselegante e mal construída, é desnecessária e desvirtua a fluidez do texto. É óbvio que todos estes (aparentes) preciosismos só interessarão a quem prima pelo aperfeiçoamento da língua portuguesa, quem a respeita tanto quanto o seu País e a trata com a dignidade que ela merece.
    Sobre o inacreditável e censurável acordo ortográfico, ainda bem que o Bruno vai escrever sobre nele. Sabemos o motivo porque a politicagem de serviço tanto o acarinha, ele é o espelho da dita e ambos não têm ponta por onde se lhes pegue. A maior parte dos políticos fala mal e porcamente o português, pelo que se a nossa língua se abastardar mais do que já está, a eles, tanto se lhes dá como se lhes deu. Até lhes deve dar imenso jeito se toda a população começar a falar e a escrever como eles, nessa altura o seu analfabetismo crónico passará totalmente despercebido.

    O facto de o acordo consignar a eliminação das consoantes mudas, deve ter sido porque os seus mentores nem sequer sabem que elas existem, muito menos lhes conhecem o significado. Não faltava mais nada que os portugueses acatassem este desaforo linguístico d'animo leve. Para compreendermos o significado dos vocábulos dos quais foram eliminadas as tais consoantes, temos que nos concentrar na leitura ou ler a frase pelo menos duas vezes, já que, por exemplo, o vocábulo "facto" (caso, assunto) nada tem a ver com "fato" (vestuário, roupa exterior) etc. Para além do mais uma língua viva tem personalidade própria e alma. A sua construção e uso requerem cuidado, amor e o máximo respeito e como tal deve ser tratada. Os políticos que a querem alterar à força, são apátridas e desnaturados e, já agora, broncos. Se não gostam da sua própria língua têm bem bom remédio, não a falem, deixem-nos em paz e emigrem para uma ilha deserta ou para um país qualquer do terceiro mundo, daqueles onde, por miséria, pobreza e abandono dos poderes "democráticos" vigentes, desgraçadamente os infelizes autóctones nem sequer se podem dar ao luxo de aprender a sua própria língua, quanto mais falá-la correctamente. Aí sim, nessas paragens longínquas e inóspitas é que os analfabrutos do acordo se sentiríam como peixe na água.

    Maria
     
    Para não falar no relevantíssimo facto de quem quer aprender português ter desde logo que escolher se quer aprender português da Europa ou da América do Sul que têm que ser ensinados ou um ou outro...
     
    Aldrabão! Cite o Pessoa por inteiro. O que ele chamou de imoral foi não se ter uniformizado a ortografia com a brasileira!
     
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