30.4.08

A LÍNGUA DOS BRASILEIROS 

Sobre as anedotas de portugueses e o desdém indesmentível, avultará sempre esta verdade elementar: se os brasileiros falam uma língua culta, a Portugal o devem. Ao vencer tribos e dialectos, legámos ao Brasil um idioma que predomina de Manaus a Porto Alegre.
Sem língua portuguesa, teriam talvez os brasileiros tomado por sua a língua dos índios da Guanabara: os tupinambás, tupis para os amigos, que inspiraram um dos ensaios de Montaigne — o famoso "Dos Canibais", de 1580.
Desde aí, os tupis navegaram literatura abaixo nas páginas de Montesquieu, Diderot e Voltaire, até aportarem ao "bom selvagem" de Rousseau e ao lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", de 1789. E assim vemos, com meridiana clareza, como a democracia e os direitos humanos entroncam numa tribo de canibais.
O hábito tupi de comer carne humana obedecia a um rígido protocolo: só comiam os seus prisioneiros de guerra, de preferência os temiminós, tribo com quem mantinham uma guerra secular. No dia da execução, as aldeias vizinhas eram convidadas para o «boca livre», uma festarola faustosa de comezaina e bar aberto. Os corpos eram retalhados. As partes mais duras penduravam-se sobre uma fogueira para defumar e destinavam-se aos homens; os miolos, as tripas e outras vísceras eram servidos às mulheres; o sangue, ainda morninho, ia para as crianças.
No «Manifesto Antropófago», de 1928, Oswald de Andrade proclama com graça: «Só a antropofagia nos une (...) Tupy, or not tupy that is the question.»
Os franceses, que nos guerrearam por aquelas paragens, carregaram para o velho continente muitos tupinambás, armazenados entre o pau-brasil e a farinha. No museu vivo da zoologia revolucionária, o tupi botou figura de "homem natural" e "bom selvagem", para espanto das madames. Muitos sobreviveram e integraram-se na delicada sociedade parisiense. Já não precisam de acordos ortográficos para nada: são de outra linhagem. De geração em geração, no espaço de quatro séculos, evoluíram da carne humana à nouvelle cuisine.

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  • Comentários:
    É uma verdade, meu caro. Sou brasileiro, e diferentemente dos meus conterrâneos que vivem a amar as tradições e culturas nada civilizadas, vejo claramente que as diferenças culturais refletem as diferenças raciais. Só não esqueça que entre os muitos amantes do canibalismo, existem seres pensantes. Europeus de raça, mas brasileiros por desgraça.

    Vide blogs:
    http://informativofasces.blogspot.com
    http://bernardowdayrell.blogspot.com
     
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