23.4.08
OS BRASILEIROS E A ORTOGRAFIA
Desde a independência, em 1822, que o Brasil assiste a querelas ortográficas e à reivindicação da autonomia da «língua brasileira». Tentou criar-se de imediato um sistema gráfico brasileiro, para espelhar as particularidades distintivas da língua falada no território. São exemplares, nesse sentido, os trabalhos do escritor Paranhos da Silva, nomeadamente os livros «O Idioma Hodierno de Portugal comparado com o do Brasil» (1879) e «Sistema de Ortografia Brasileira» (1880), ambos de tendência fonográfica, arguindo um sistema gráfico distinto de quantos haviam sido praticados em Portugal. Ensimesmado na sua lusofobia, Paranhos da Silva chega ao ponto de tentar demonstrar a filiação do "brasileiro" no castelhano.
Em Machado de Assis, as páginas de sua lavoura ainda apresentam um português de grande rigor clássico, mas os ventos sopravam já noutras direcções.
Em 1907, a Academia Brasileira propõe um ror de alterações porque "não é possível achar uma ortografia conciliadora (...) nem há razão para que vinte e cinco milhões de brasileiros se dobrem aos hábitos de prosódia de cinco milhões de portugueses." Estando hoje a proporção cifrada de 10 para 180 milhões, entende-se por que não querem os brasileiros dobrar-se aos hábitos de prosódia lusos, impondo-nos antes a «norma» deles.
Há cem anos, Cândido de Figueiredo, vaidoso como um pavão, para além de filólogo e escritor, correu a aprovar a reforma brasileira. Tal qual os toleirões de hoje, que se pelam por figurar nos rodapés da História apondo os seus nomes às "reformas" da educação, da saúde ou da ortografia, também assim Figueiredo cobiçou a vã glória de reformar, aceitando uma «norma» que contrariava até disposições que ele havia fixado. Mas a modéstia não era o seu forte. Durante anos a fio, lisonjeou-se de ter sido o precursor, o primeiro, "o único homem de letras que transcreveu e saudou a reforma ortográfica da Academia Brasileira."
Logo após, os modernistas de 22, com Mário de Andrade e Manuel Bandeira à tola, para lá dos muitos méritos literários, revoltearam definitivamente o português do Brasil. Por amálgama, fundiram dicções e vocábulos de todas as regiões brasileiras, e violaram conscientemente a gramática e as regras. Mesmo após o acordo ortográfico luso-brasileiro de 1931, encontrar-se-á quem continue a reclamar uma «Ortografia Simplificada Brasileira», baseada na especificidade da pronúncia do Brasil: é o caso de Bertoldo Klinger, militar de carreira e linguista de caserna, que em 1940 propõe uma reforma com aquela designação.
Após a «revolução» modernista, as inovações do português do Brasil deram-se mais por via lexical do que ortográfica. Para provar tal asserção, é suficiente a obra de João Guimarães Rosa, que integra ainda vagamente a terceira geração modernista. Todavia, o sulco profundo e, porventura, irreparável entre as duas variantes do português fora cavado havia décadas.
Etiquetas: Acordo Ortográfico
Comentários:
Está tudo muito certo. Mas tens que admitir que as brasileiras, apresentam geralmente uma "fonética" muito interessante...
Enviar um comentário
