7.5.08
KE FUTURO?
A imitação da pronúncia como critério ortográfico, se não mesmo como ideal de representação gráfica, remonta a Quintiliano. O gramático de Calahorra criou assim as bases da corrente fonética. Os profissionais das mensagens SMS, sempre agarrados ao telemóvel, advogam-na e praticam-na sem terem consciência disso. Em 1630, alguns séculos antes do telemóvel, não faltou aqui ao lado em Espanha quem propusesse também «ke eskrivamos komo se pronunzia y pronunziemos komo se eskrive». Foi o gramático Gonzalo Correas. O que ele não redigiria hoje com um Nokia nas mãos! O problema actual é a cedência demasiada a esta linha fonetizante, em prejuízo da etimologia.
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30.4.08
A LÍNGUA DOS BRASILEIROS
Sobre as anedotas de portugueses e o desdém indesmentível, avultará sempre esta verdade elementar: se os brasileiros falam uma língua culta, a Portugal o devem. Ao vencer tribos e dialectos, legámos ao Brasil um idioma que predomina de Manaus a Porto Alegre.
Sem língua portuguesa, teriam talvez os brasileiros tomado por sua a língua dos índios da Guanabara: os tupinambás, tupis para os amigos, que inspiraram um dos ensaios de Montaigne — o famoso "Dos Canibais", de 1580.
Desde aí, os tupis navegaram literatura abaixo nas páginas de Montesquieu, Diderot e Voltaire, até aportarem ao "bom selvagem" de Rousseau e ao lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", de 1789. E assim vemos, com meridiana clareza, como a democracia e os direitos humanos entroncam numa tribo de canibais.
O hábito tupi de comer carne humana obedecia a um rígido protocolo: só comiam os seus prisioneiros de guerra, de preferência os temiminós, tribo com quem mantinham uma guerra secular. No dia da execução, as aldeias vizinhas eram convidadas para o «boca livre», uma festarola faustosa de comezaina e bar aberto. Os corpos eram retalhados. As partes mais duras penduravam-se sobre uma fogueira para defumar e destinavam-se aos homens; os miolos, as tripas e outras vísceras eram servidos às mulheres; o sangue, ainda morninho, ia para as crianças.
Sem língua portuguesa, teriam talvez os brasileiros tomado por sua a língua dos índios da Guanabara: os tupinambás, tupis para os amigos, que inspiraram um dos ensaios de Montaigne — o famoso "Dos Canibais", de 1580.
Desde aí, os tupis navegaram literatura abaixo nas páginas de Montesquieu, Diderot e Voltaire, até aportarem ao "bom selvagem" de Rousseau e ao lema de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", de 1789. E assim vemos, com meridiana clareza, como a democracia e os direitos humanos entroncam numa tribo de canibais.
O hábito tupi de comer carne humana obedecia a um rígido protocolo: só comiam os seus prisioneiros de guerra, de preferência os temiminós, tribo com quem mantinham uma guerra secular. No dia da execução, as aldeias vizinhas eram convidadas para o «boca livre», uma festarola faustosa de comezaina e bar aberto. Os corpos eram retalhados. As partes mais duras penduravam-se sobre uma fogueira para defumar e destinavam-se aos homens; os miolos, as tripas e outras vísceras eram servidos às mulheres; o sangue, ainda morninho, ia para as crianças.
No «Manifesto Antropófago», de 1928, Oswald de Andrade proclama com graça: «Só a antropofagia nos une (...) Tupy, or not tupy that is the question.»
Os franceses, que nos guerrearam por aquelas paragens, carregaram para o velho continente muitos tupinambás, armazenados entre o pau-brasil e a farinha. No museu vivo da zoologia revolucionária, o tupi botou figura de "homem natural" e "bom selvagem", para espanto das madames. Muitos sobreviveram e integraram-se na delicada sociedade parisiense. Já não precisam de acordos ortográficos para nada: são de outra linhagem. De geração em geração, no espaço de quatro séculos, evoluíram da carne humana à nouvelle cuisine.
Os franceses, que nos guerrearam por aquelas paragens, carregaram para o velho continente muitos tupinambás, armazenados entre o pau-brasil e a farinha. No museu vivo da zoologia revolucionária, o tupi botou figura de "homem natural" e "bom selvagem", para espanto das madames. Muitos sobreviveram e integraram-se na delicada sociedade parisiense. Já não precisam de acordos ortográficos para nada: são de outra linhagem. De geração em geração, no espaço de quatro séculos, evoluíram da carne humana à nouvelle cuisine.
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28.4.08
ACORDO ORTOGRÁFICO, PARA QUÊ?
Modificam-se as línguas não só no tempo como no espaço. E se o espaço (ainda) vai do Minho a Timor, passando pelo Brasil, como não há-de a língua portuguesa mostrar-se diferente em cada lugar onde vive?
Se as línguas se não modificassem ao longo dos tempos, ainda hoje falávamos aqui no rectângulo o primitivo galaico-português, de que floresceu o nosso idioma.
Dito isto, nem os portugueses podem obrigar os brasileiros a dizer facto, nem os brasileiros podem querer que os portugueses digam fato, não se referindo à peça de roupa. Continue-se lá a dizer de fato e cá de facto, que a língua portuguesa nada perde com isso.
Na verdade, há casos em que a diversidade de pronúncia geralmente seguida no Brasil ou em Portugal determina ou admite um registo ortográfico distinto. Marquem-se, portanto, as preferências de cada um dos falares, mas não se adopte nunca o processo de impor ou ceder grafias, por mero intuito de solucionar enganosamente problemas advindos de diferenças inevitáveis.
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23.4.08
OS BRASILEIROS E A ORTOGRAFIA
Desde a independência, em 1822, que o Brasil assiste a querelas ortográficas e à reivindicação da autonomia da «língua brasileira». Tentou criar-se de imediato um sistema gráfico brasileiro, para espelhar as particularidades distintivas da língua falada no território. São exemplares, nesse sentido, os trabalhos do escritor Paranhos da Silva, nomeadamente os livros «O Idioma Hodierno de Portugal comparado com o do Brasil» (1879) e «Sistema de Ortografia Brasileira» (1880), ambos de tendência fonográfica, arguindo um sistema gráfico distinto de quantos haviam sido praticados em Portugal. Ensimesmado na sua lusofobia, Paranhos da Silva chega ao ponto de tentar demonstrar a filiação do "brasileiro" no castelhano.
Em Machado de Assis, as páginas de sua lavoura ainda apresentam um português de grande rigor clássico, mas os ventos sopravam já noutras direcções.
Em 1907, a Academia Brasileira propõe um ror de alterações porque "não é possível achar uma ortografia conciliadora (...) nem há razão para que vinte e cinco milhões de brasileiros se dobrem aos hábitos de prosódia de cinco milhões de portugueses." Estando hoje a proporção cifrada de 10 para 180 milhões, entende-se por que não querem os brasileiros dobrar-se aos hábitos de prosódia lusos, impondo-nos antes a «norma» deles.
Há cem anos, Cândido de Figueiredo, vaidoso como um pavão, para além de filólogo e escritor, correu a aprovar a reforma brasileira. Tal qual os toleirões de hoje, que se pelam por figurar nos rodapés da História apondo os seus nomes às "reformas" da educação, da saúde ou da ortografia, também assim Figueiredo cobiçou a vã glória de reformar, aceitando uma «norma» que contrariava até disposições que ele havia fixado. Mas a modéstia não era o seu forte. Durante anos a fio, lisonjeou-se de ter sido o precursor, o primeiro, "o único homem de letras que transcreveu e saudou a reforma ortográfica da Academia Brasileira."
Logo após, os modernistas de 22, com Mário de Andrade e Manuel Bandeira à tola, para lá dos muitos méritos literários, revoltearam definitivamente o português do Brasil. Por amálgama, fundiram dicções e vocábulos de todas as regiões brasileiras, e violaram conscientemente a gramática e as regras. Mesmo após o acordo ortográfico luso-brasileiro de 1931, encontrar-se-á quem continue a reclamar uma «Ortografia Simplificada Brasileira», baseada na especificidade da pronúncia do Brasil: é o caso de Bertoldo Klinger, militar de carreira e linguista de caserna, que em 1940 propõe uma reforma com aquela designação.
Após a «revolução» modernista, as inovações do português do Brasil deram-se mais por via lexical do que ortográfica. Para provar tal asserção, é suficiente a obra de João Guimarães Rosa, que integra ainda vagamente a terceira geração modernista. Todavia, o sulco profundo e, porventura, irreparável entre as duas variantes do português fora cavado havia décadas.
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22.4.08
A EVOLUÇÃO ORTOGRÁFICA
A ortografia portuguesa foi sempre um tema discutido e tratado. Ao longo de séculos, a «norma» evoluiu, sem ser necessária a intervenção do Estado ou a celebração de «acordos bilaterais».
Aos debates compareceram pontualmente a corrente etimológica e a linha fonética tradicional, representada desde o século XVI por Fernão de Oliveira e João de Barros, que interpretaram ipsis litteris a lição quintiliana segundo a qual deve escrever-se como se fala.
Entre polémicas e arrufos, o português espalhou-se pelas quatro bocas do mundo, evoluindo sem «reformas» nem «convenções» nas propostas de Duarte Nunes de Leão, Manuel Severim de Faria, Bento Pereira ou Rafael Bluteau, nomes que os modernos parece ignorarem, como de resto ignoram tudo, salvo as lições espantosas do Lindley Cintra e do Malaca Casteleiro.
Ainda antes da fundação da Real Academia das Ciências de Lisboa, que ocorreu em 1779, no reinado de D. Maria I, distinguiu-se a obra "etimologizante" do jesuíta João Madureira Feijó, que publicou em 1734 o imprescindível «Orthographia ou arte de escrever e pronunciar com acerto a língua portugueza». Mas as páginas eruditas de Feijó não resistiram às reformas pombalinas, que baniram o jesuíta da instrução e das bibliotecas.
Foi com Pombal (Sebastião José não falha uma) que ganhou vantagem decisiva a corrente "fonetizante" — sendo já com tal cunho que surgem a Academia das Ciências pela mão do Duque de Lafões, as conferências do Conde da Ericeira, e a influente «Academia Orthográfica Portugueza», fundada por Pinheiro Freire em 1772.
Já no século XIX, publicam-se as «Bases da Orthografia Portuguesa» (1885), de Gonçalves Viana e Vasconcelos Abreu, que constituem a matriz fundadora da reforma de 1911. Daí para a frente já conhecemos a história.
Aos debates compareceram pontualmente a corrente etimológica e a linha fonética tradicional, representada desde o século XVI por Fernão de Oliveira e João de Barros, que interpretaram ipsis litteris a lição quintiliana segundo a qual deve escrever-se como se fala.
Entre polémicas e arrufos, o português espalhou-se pelas quatro bocas do mundo, evoluindo sem «reformas» nem «convenções» nas propostas de Duarte Nunes de Leão, Manuel Severim de Faria, Bento Pereira ou Rafael Bluteau, nomes que os modernos parece ignorarem, como de resto ignoram tudo, salvo as lições espantosas do Lindley Cintra e do Malaca Casteleiro.
Ainda antes da fundação da Real Academia das Ciências de Lisboa, que ocorreu em 1779, no reinado de D. Maria I, distinguiu-se a obra "etimologizante" do jesuíta João Madureira Feijó, que publicou em 1734 o imprescindível «Orthographia ou arte de escrever e pronunciar com acerto a língua portugueza». Mas as páginas eruditas de Feijó não resistiram às reformas pombalinas, que baniram o jesuíta da instrução e das bibliotecas.
Foi com Pombal (Sebastião José não falha uma) que ganhou vantagem decisiva a corrente "fonetizante" — sendo já com tal cunho que surgem a Academia das Ciências pela mão do Duque de Lafões, as conferências do Conde da Ericeira, e a influente «Academia Orthográfica Portugueza», fundada por Pinheiro Freire em 1772.
Já no século XIX, publicam-se as «Bases da Orthografia Portuguesa» (1885), de Gonçalves Viana e Vasconcelos Abreu, que constituem a matriz fundadora da reforma de 1911. Daí para a frente já conhecemos a história.
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11.4.08
IMORAL E IMPOLÍTICO
Já ando para escrever sobre o Acordo Ortográfico há algum tempo. Os leitores perdoam-me a falta de oportunidade. Parece-me uma das batalhas que importa travar e vencer na blogosfera. Antes de mais, esclareço a minha posição: sou contra.
A questão das consoantes mudas, só por si, dá vários tratados. A eliminação do hífen, outros tantos. O acordo estabelece que não se usará hífen em palavras com prefixo terminado em vogal e o segundo elemento começado por 'r' ou 's'. Acaba assim com os anti-semitas. De ora em diante, só antissemitas. Nelson Rodrigues, o extraordinário dramaturgo e polemista brasileiro, recorria amiúde nas suas crónicas à expressão "um sol de rachar catedrais". Pois aquele «SS» central em antissemitas é de rachar sinagogas.
O assunto merece mais do que um postal, mas para já deixo aqui as duas principais razões do meu protesto:
O assunto merece mais do que um postal, mas para já deixo aqui as duas principais razões do meu protesto:
1. O Estado não tem nada que se meter onde não é chamado. Que vá peneirar os tiques totalitários para outros domínios. Um idioma não se impõe por decreto. Fernando Pessoa, por exemplo, marimbou-se de alto para a Reforma Ortográfica de 1911 e continuou a grafar como havia aprendido. Sobre a reforma republicana, escreveu: «Além do impatriotismo, foi o acto imoral e impolítico».
O Inglês é a língua franca do mundo inteiro, mas nenhum Parlamento pretendeu até hoje "unir" e "harmonizar" as ortografias do Reino Unido e dos Estados Unidos, que são diferentes.
2. A diferença entre o Português de Portugal e o do Brasil é menos ortográfica do que lexical. Para além das naturais variações de pronúncia, prosódia e morfossintaxe. Há autocarro, em Portugal, e ônibus, no Brasil; comboio e trem; eléctrico e bonde; boleia e carona; talho e açougue; pequeno-almoço e café da manhã; casa de banho e banheiro; relvado e gramado; guarda-redes e goleiro; matraquilhos e pimbolim; telemóvel e celular; e um larguíssimo etc.
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