9.11.09

O MURO E A «TRANSFORMAÇÃO DA REALIDADE» 

Às vezes vale a pena contar a história devagarinho. No fim da II Guerra Mundial, a Alemanha foi submetida ao costumeiro processo de humilhação e Berlim dividida em quatro sectores: o americano, o inglês, o francês e o soviético. Não sobrou nada para os alemães. Em 1949, o sector soviético foi integrado na República Democrática da Alemanha (RDA), que gravitava em torno da URSS.
Como milhares de berlinenses do lado de lá, apesar de viverem no paraíso socialista, insistissem em emigrar para o inferno do capitalismo, construiu-se o muro na madrugada de 13 de Agosto de 1961. Houve famílias separadas de um dia para o outro, algumas para sempre. Foi proibida a passagem de pessoas para o sector ocidental da cidade. Em 300 torres de vigilância havia soldados prontos a disparar sobre quem violasse a ordem socializante.
O muro de Berlim cumpriu o seu papel de divisão e enfraquecimento da Europa, imagem de marca de um continente rachado a meio.
A rapaziada esquerdista dos anos 70 e 80 sabia de cor o currículo dos atletas da RDA e as medalhas olímpicas conquistadas. Segundo eles, a prova inequívoca da superioridade do comunismo e da «transformação da realidade». Há dias vi uma reportagem sobre a Heidi Krieger, antiga campeã da Europa do lançamento do peso e grande vedeta da RDA. Hoje chama-se Andreas, tem bigode e contraiu matrimónio com uma nadadora. Há outros exemplos. Os planos quinquenais de doping obrigatório foram, eles sim, a maior prova de «transformação da realidade». Em Portugal abundam no parlamento entusiastas e ex-entusiastas do falecido bloco. Mas, por cá, para transformar a realidade nem sequer peço mudanças de sexo. Já me contentava de ver a Ana Drago com um bigode maior e as orelhas mais pequenas.

  • 2 Mimos & Coices
  • 6.11.09

    CONVITE PARA HOJE 

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  • 0 Mimos & Coices
  • 1.11.09

    A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA COMO ARMA DO SISTEMA 

    Ante os múltiplos casos de corrupção, surgem sempre as figuras do regime a lembrar que todas as pessoas se presumem inocentes enquanto não houver trânsito em julgado da respectiva sentença condenatória. Parece que é civilizado e cool repetir isto com ar sério e ilustrado. Percebe-se a razão. Como os políticos e os poderosos nunca são condenados, o princípio dá-lhes rédea solta para tripudiar nos ministérios, nas câmaras e nas empresas públicas.
    A presunção de inocência é uma figura de retórica. Existe para proteger a oligarquia política dominante. Não tem qualquer aplicação prática para os portugueses comuns.
    Invoca-se a presunção de inocência para Armando Vara, mas não para o sr. Manuel Godinho, julgado sumariamente nos media e tratado sempre abaixo de sucateiro.
    Não ignoro que o in dubio pro reo remonta ao direito romano. Sei isso e outras coisas mais. Mas como a corrupção em Portugal atingiu uma dimensão quase sul-americana, o remédio é a inversão do ónus da prova. Os portugueses comuns são já obrigados a aceitá-la em casos fiscais. Por que não há-de o titular de um cargo público suportar a mesmíssima inversão?

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  • 20.10.09

    CAIM 

    Já se sabia isto pelo menos desde «O Evangelho segundo Jesus Cristo». O maior escritor castelhano de expressão portuguesa não tem unhas para tocar a cítara católica. Ele bem assesta o cano, mas o tiro sai-lhe sempre pela culatra. Na sua visão ideológica e corrompida, interpreta as cenas bíblicas literalmente. Falta-lhe estaleca para mais. Movimentou-se sempre no mundilho estreito e acanhado do anti-clericalismo, dos gulags, das purgas, dos tiros na nuca. Tomou na vida o partido de Caim — foiceando Abel. Não se muda aos 90 anos. Ignorante e ronceiro, interpreta agora o «Génesis» ao pé da letra, como se estivesse a ler um panfleto do Lidl ou do Pingo Doce. Não alcança a importância do "mito", a simbologia dos episódios, a efabulação da narrativa. Para escritor, isto é divino — como diria o Eça. A mim dá-me um gozo inaudito.

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  • 19.10.09

    SARAMAGO SEGUNDO JESUS CRISTO 

    Est’ano, Senhora, trago
    Comigo um pesado encargo,
    Intenção extra e concisa:
    A de orar por Saramago
    Que, coitado, bem precisa.

    Não tivesse Cristo-Rei
    Um tão imenso fair play
    E já Irmão Saramago
    Agora teria pago
    Com juro e língua de palmo
    O seu sacrílego salmo...

    José Saramago, visto
    Ao vivo por Jesus Cristo...
    Saramago, o escritor,
    Biografadinho e descrito
    Segundo Nosso Senhor:
    Havia de ser bonito!...

    O que o salva é Cristo-Rei
    Ter um tão grande fair play,
    Quando não, Virgem Maria,
    Esse Evangelho vermelho
    Onde é que já não estaria...

    Proponho assim, por descargo
    — Como quem dá a camisa —
    Rezarmos por Saramago
    Que bem precisa, coitado.
    Mãe dos Céus! Oh se precisa...

    Rodrigo Emílio

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  • 14.10.09

    GUIÃO PARA VÍDEO DE HUMOR CASEIRO 

    Proença-a-Nova

    Proença-a-Nova e Proença-a-Velha são duas pequenas vilas do distrito de Castelo Branco, uma cidade com mais de 20 anos. Quase todas as pessoas usam bigode, mesmo os homens. O topónimo Proença suscita as maiores dúvidas a filólogos e literatos. Crê-se que tem origem em França, mais concretamente em Roma. Os Proenças descendem assim directamente dos centuriões. O distrito de Castelo Branco é banhado pelo mar, ou melhor, pelo rio Tejo que desagua no mar, o que vai dar o mesmo. Quem nasceu na cidade foi o famoso escritor português Camilo, que viveu no século XVII e assinava Castelo Branco por aqui ter passado toda a vida.


    Proença-a-Velha

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  • 11.10.09

    PROPOSTA DE FESTIVAL PARA O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA 

    Super Glock Super Rock.

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  • MANHÃ SANGRENTA 

    Em Ermelo, no concelho de Mondim de Basto, verificou-se hoje um episódio ilustrativo da ética republicana. O candidato do PS abateu a tiro de caçadeira em plena mesa de voto o marido da candidata do PSD.
    A república abalou o Trono a tiros de pistola, em 1908. Livrou-se dele por via revolucionária dois anos depois. Instituiu os «batalhões de voluntários», as «comissões de vigilância» e vários métodos de polícia política. O programa era simples e sincero: perseguir os monárquicos e os padres, rachar os sindicalistas (a expressão parece que é de Afonso Costa), torturar os oposicionistas e impor a ditadura do Partido Republicano. Em pleno Senado, houve pistolas apontadas à cabeça dos adversários. A 19 de Outubro de 1921, foram assassinados Machado Santos, Carlos da Maia e o próprio primeiro-ministro António Granjo.
    Apesar destes avanços de progressismo e democracia, há 100 anos o republicanismo era um fenómeno alfacinha — uma ideia minoritária que Lisboa tratou de infligir ao país. O episódio de Mondim de Basto mostra que a república está hoje solidamente incrustada nas mais remotas faldas nacionais. Podem dormir descansados e felizes todos os republicanos, socialistas e laicos.

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  • 5.10.09

    ÀS PORTAS (TRAVESSAS) DE UM CINCO DE OUTUBRO 

    Exorcismo lírico e satírico de Rodrigo Emílio, tendente a conjurar o advento da república, e seus derivados...

    I. A camioneta-
    -fantasma

    pasma do poeta...
    E o poeta não pasma.

    Ei-lo à margem dos seus
    e fora da lei,
    — mas fiel a Deus,
    à Pátria e ao Rei!

    Não pede clemência,
    não faz qualquer súplica
    a Sua Indecência,
    a República.

    Morrerá menino e moço,
    sem Pátria nem parentela,
    com uma cruz ao pescoço
    e a coroa real na lapela.

    II. O cincozinho d'Outubro
    é um perfeito mamarracho.
    E eu por cima dele subo
    ou me entorno dele abaixo,
    a ver se o sumo
    e me sumo
    ou me agacho...

    É uma data sem maneiras,
    que não tem aceitação.
    As orelhas e as olheiras
    comem-lhe toda a feição...
    Possui cara de traseiras,
    com perfil de saguão.

    Não tem serventia
    nem para a escada
    que conduz à pia
    e, desta, à piada.

    Que gaita de data
    mais patarata
    e sinistra, ó Sinatra!
    Sinistra a valer!...

    E que lenda mais lerda
    — que lêndea de lenda —,
    à coca e à cata
    de gozo e lazer...!

    Cheiínha de lata,
    a mais não poder...
    oh, que raio de data

    laica que se farta,
    socialista à brava
    e de esquerda-volver...

    É mandá-la varrer
    da face do mapa.
    — Que `stá lá ela a fazer?!...

    Sucata é sucata.

    É mandá-la varrer...

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  • 4.10.09

    FÜR ELISE 

    Ouço uma candidata à Câmara do Porto: «As tripas merecem o nosso respeito. Quem goza com as tripas está a gozar com a cidade.» Concluo que o país não precisa de medidas "drásticas"; isto só lá vai com medidas "gástricas".

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  • 3.10.09

    À SEGUNDA FOI DE VEZ 

    Já não será preciso realizar um terceiro referendo na Irlanda.

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  • O ANALFABETISMO NA IMPRENSA 

    Diz-se Samatra e não Sumatra. Foram os portugueses quem baptizou a ilha de Samatra ou Çamatra no século XVI. Parece que era o nome dado às tempestades tropicais típicas do Estreito de Malaca. Depois chegaram os ingleses ao Oriente, conheceram a ilha e passaram a grafá-la como Sumatra, tentando reproduzir na sua língua o som da primeira sílaba. Os «livros de estilo» da imprensa lusa macaqueiam agora os do "Times" e do "Guardian". Uma questão de ignorância.

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  • 17.9.09

    BLOGUE DE CAMPANHA 

    Terra Portuguesa.

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  • 11.9.09

    ESTA DOU DE BORLA 

    Em rigor, «asfixia democrática» é a falta de ar provocada pela democracia. O que eles querem sugerir, mas não sabem, é «democracia asfixiada».

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  • 6.9.09

    A EURIBOR VALE MENOS QUE UM PASTEL DE NATA 

    Ver só com os olhos
    É fácil e vão:
    Por dentro das coisas
    É que as coisas são.

    Os versos de Carlos Queiroz, o verdadeiro, o competente, não o treinador de pacotilha do misto luso-brasileiro, caem aqui como sopa no mel. Um dos problemas dos nossos liberais é que a sua análise fica sempre pela rama, nunca vê por dentro das coisas. Não se trata apenas de reduzir o peso do Estado na Economia. Trata-se de reduzir o peso da Economia no estado de cada um de nós.

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  • "JÁ FOMOS UM PAÍS" 

    A expressão "este país" é filha do PREC e dos tristíssimos anos de penúria que se lhe seguiram. Antes, na Monarquia como na república e no Estado Novo, Portugal era nação, era pátria, era império. Justiça seja feita a essa sucessão de regimes que mantiveram o culto da pátria, da sua grandeza e feitos, mas nunca reduziram esta nação a um obscuro canto da Europa. Justificarão os "esclarecidos" que tudo isso era nacionalismo romântico, que tudo isso teve um tempo e é coisa datada.

    Quando a rua tomou conta de tudo, quando os violeiros baladeiros praticaram a terra queimada, lobotomizaram os portugueses, lhes ensinaram Amílcar Cabral e Agostinho Neto em vez de Camões e Pessoa, quando destruíram a Universidade, arrasaram as Forças Armadas, fizeram esquecer às crianças o respeito ao hino e à bandeira, retiraram dos compêndios as dinastias e os reis que nos fizeram, retiraram das escolas os mapas de Portugal e os substituíram pela Carochinha do "meio natural", das "problemáticas sociais" e da "educação para a cidadania", tudo se desmoronou.

  • 0 Mimos & Coices
  • 30.8.09

    LINHA DE SINTRA 

    No comboio descendente
    Vinha tudo à catanada.
    Uns para matarem outros
    E outros sem ser por nada
    No comboio descendente
    De Mem Martins a Agualva...

    No comboio descendente
    Mas que estapafúrdia cena!
    Uns sangrando, outros aos berros
    E outros sem sentir pena
    No comboio descendente
    De Agualva a Barcarena...

    No comboio descendente
    Vinham todos de capuz.
    Havia pistolas, facas,
    só lá faltava um obus
    No comboio descendente
    De Barcarena a Queluz.

  • 3 Mimos & Coices
  • 26.8.09

    SELECÇÃO NACIONAL 

    Isto de ter brasileiros a representar Portugal é uma moléstia que nos corrói desde o tempo do Senhor Dom Pedro IV.

  • 3 Mimos & Coices
  • 16.8.09

    BALADA DE CAMPAMENTO 

    Ao Tó-Zé de Almeida, dilecto companheiro dos dias de desterro em Campamento; e amigo-como-irmão.

    As manhãs de Campamento
    vinham ter comigo à cama,
    com as rajadas de vento
    da Serra de Guadarrama.

    De Campamento me lembro
    sete dias na semana.
    Panorama friorento...
    Nevoento panorama...

    O suor do esquecimento
    já aos poucos se derrama
    sobre o rosto do Convento,
    que me chama... Que me chama!...

    Convento de Campamento,
    pousada samaritana:
    — por fora, vento; por dentro,
    acalanto e acalento,
    à tona de tão mau tempo...,
    ao lume de tanta lama.

    Foi-me palco de advento
    e adro de muito drama.
    Confiei-lhe o meu lamento.
    Solfejou-me o seu hosana.
    (O meu último rebento,
    que a três «manos» — mais — se irmana,
    é natural do Convento
    de Campamento; e lá dentro
    teve berço, colo e... mama).

    Cobrou , chama e alento.
    , ganhou alento e chama,
    como em qualquer sonolento
    regaço de velha ama.

    lhe grangeei sustento;
    e, grão a grão, grama a grama,
    lhe meti boca dentro
    a papa quotidiana.
    (Era de escasso alimento
    essa niña franciscana...)

    Revejo-a, a todo o momento,
    de xalinho e em pijama,
    no xadrês do pavimento
    do Convento, que a aclama
    — mesmo se o seu turbulento
    feitio de catavento
    desponta por la mañana.

    «gatinhou» a contento...
    , colheu mimos... e fama.
    lhe modelou o tempo
    seu perfil de filigrana.

    Ai dias de Campamento,
    cinzelados a cinzento...,
    bordados de renda e rama...,
    na cerca desse Convento
    que, adentro de mim adentro,
    se protege do relento
    da Meseta castelhana!...

    Ora absorto, ora atento
    ao isento isolamento
    que azuladamente o banha,
    alevanta-se o Convento —
    , ali, naquele epicentro
    espiritual da Espanha...

    — ...Alevanta-se o Convento;
    e levita, paira, plana...
    , como que a dar tempo ao tempo
    e montanhas à montanha!...

    Convento de Campamento,
    minha tenda de campanha
    entranhada serra dentro,
    mas que a serra desentranha
    num girassol de cimento —
    armado — por — quem — no — ama:

    — Mete a proa a contravento,
    e faz, como as naus do Gama,
    guerra ao tempo
    e à moirama!...

    Ai tardes de alheamento...
    Serões de noite serrana...
    Ai tempo à prova de tempo,
    no bento recolhimento
    das faldas de Guadarrama!

    Ai tardes de alheamento
    — e manhãs de cinerama!...

    De Campamento me lembro
    sete dias na semana.
    Persiana... Paramento...
    Paramento e persiana...

    O suor do esquecimento
    já aos poucos se derrama
    sobre o rosto do Convento
    que me chama...

    ... Convento de Campamento,
    templo de Marte e Diana,
    a impôr ao firmamento —
    com expressões de nirvana...
    — seu recorte corpulento,
    seu aspecto macilento,
    sua fronte soberana...

    Rodrigo Emílio

  • 4 Mimos & Coices
  • 3.8.09

    PODER LOCAL 

    Há cinquenta e tal anos um estadista português encomendou plantas a uma empresa de Coimbra para fins particulares. Os gerentes da firma, sopesando decerto com manha comercial a função do cliente, quiseram oferecer a mercadoria. A reacção do velhote motivou à empresa a seguinte missiva:

    A Melo & Irmão enviaria uma factura de marmeleiros, macieiras, pessegueiros e aveleiras, no valor de 123$00 (cento e vinte e três escudos), na qual o estadista apontou: "Enviei a importância em 26-1-1952".

    Não faço leituras políticas. Lembro o episódio porque acabei de ouvir um autarca, destes mais modernos, condenado a prisão e tudo, afirmar muito sério que aceitou um terreno em Cabo Verde «no âmbito da cooperação política» entre o município de Oeiras e a Câmara de São Vicente. Quer dizer, estes fulanos aduzem em sua defesa o que em qualquer paralelo serviria para os condenar sumariamente.

  • 2 Mimos & Coices
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